Desisto. Abandono a tortura mental do quarto; da insônia que me persegue. Coloco qualquer roupa jogada pelo chão, giro a chave e bato a porta. Desço as escadas, degrau por degrau até alcançar a rua. O casal de jovens já não está mais ali, os táxis já não passam mais por aqui e um pedinte dorme debaixo de um papelão. Não adianta mesmo ser livre, se tanta gente vive sem ter como comer.
Sigo sem rumos, sem barreiras ou fronteiras; na liberdade que só as madrugadas podem conceder. Não é a primeira vez que faço este trajeto, não é a primeira vez que sigo pelas ruas tarde da noite.
Suave é a noite, e é a noite que eu saio - pra conhecer a cidade e me perder por aí. Suave é cidade pra quem tem necessidade de se esconder. Esta cidade muito grande e ao mesmo tempo tão pequena; uma realidade por vezes tão distante do resto do país. Estamos longe demais das capitais.
As ruas seguem sob meus pés; atravesso uma grande avenida sem sequer necessitar olhar para os lados. Ao longe alguns carros, o barulho dos freios de um ônibus, e outros seguindo seus próprios rumos. Há mais de mil destinos em cada esquina.
Sempre me perco pelas mesmas ruas; não trago mapas, não leio as placas. Ando sem saber até quando. Não quero ter o que não tenho; só quero viver. Perder o rumo é bom - se perdido a gente encontra um sentido escondido em algum lugar.
Subo uma longa escadaria, observo o mundo lá embaixo. Ao longe os morros iluminados. Em alguns prédios janelas ainda acesas. Desço pelo outro lado das escadas. Nas calçadas moradores das ruas - moradores da noite.
Pelas ruas a indiferença, a desigualdade, a fragilidade humana. E todos fingem ser cegos; assistem as cenas e fingem pena. Isso já faz parte da rotina. Não é que eu faça questão de ser feliz, só queria que parassem de morrer de fome a um palmo do meu nariz.
Sigo pelas ruas sem planos, sem rumos. Pelo chão resquícios de propagandas de um prazer pago. Nas paredes as marcas dos modernos homens das cavernas: pictografia, arte rupestre ou somente pichações? Placas, adesivos, outdoors.
Muros e grades separam um mundo real de outro imaginário. Um país tão irreal e violento. O medo leva o povo a tudo - sobretudo à fantasia. E assim erguem-se muros para dar uma falsa garantia de uma morte cheia de uma vida tão vazia.
Ando só. Mesmo que pareçam bobagens as rotas que eu traço, tento traçar meus rumos (a esmo). Sigo sem saber aonde vou. Afinal de contas: nem sempre faço o que é melhor pra mim, mas nunca faço o que eu não tô afim de fazer.