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2 de out. de 2013

Notas sobre uma praia

Caminhei por horas sobre a areia;
o mar tentando a todo momento molhar meus pés.
Caminhei por horas pela beira da praia;
olhei para trás e parecia que poucos metros havia percorrido.

Estou em um hotel barato próximo ao mar. Divido com outros cinco colegas. Todas noites são iguais - garotos bêbados discutindo futilidades corriqueiras. Por vezes fujo de tudo para olhar o oceano e tentar lavar a alma.

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Escrevo essas palavras de um ônibus que desconheço seu trajeto - só sei seu destino.
A cidade está tomada de estrangeiros. Congressistas doutores vindo de vários lugares. Conversei em um péssimo inglês com dois deles. Uma pesquisadora canadense e um professor australiano. "Austrália - a terra onde qualquer coisa pode te matar" disso à ele. Ele riu; piada clássica. Me questionaram o que pretendo fazer em meu futuro. Respondi o óbvio, pois nem eu o sei.

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Gaivotas gigantescas molhavam as pernas no mar.
Corriam de mim quando me aproximava.
O mar vêm e vai.

Um terminal de ônibus se aproxima.
Pessoas correm.
Em algum lugar o mar vêm e vai.

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27 de set. de 2013

Há muito tempo que ando na rua de uma Elegante Barbearia


Fundada em 1947, a Barbearia Elegante vai fechar as portas...

2013. A barbearia localizada quase na esquina da Jerônimo Coelho com a Borges era (ou ainda é) um pedacinho do passado, no centro de Porto Alegre. A aposentadoria, depois de mais de 60 anos, deve ser um sinal dos novos tempos. Os barbeiros que não irão "guardar na gaveta suas navalhas", vão migrar para outras barbearias e salões ainda vivas.
"Oh, fica com o meu cartão". - disse o meu barbeiro - "Vou estar agora ali na travessa, perto da saída do cinema". Ali já não é mais exatamente a saída do cinema. O cinema já fechou praticamente - uma ou duas salas permanecem apenas.

Foto: Instagram - Roberta Malta (http://instagram.com/p/Y5ZFVCCqUN/)

Os cinemas eram sucesso em 1947, quando a barbearia abriu. Nos cartazes provavelmente estavam "Copacabana" - com  Groucho Marx e Carmen Miranda - e “Tarzan e a Caçadora”. Era pós guerra; os Aliados haviam vencido o Eixo dois anos antes. A geração "baby boom" iria cortar seus cabelos por ali. Na rua, em frente, deviam passar ou estar estacionados alguns Ford Mercury, Simca's e Chevrolet's. Talvez movidos à gasogênio - já que a gasolina estava em falta.
Em 1950' os bondes deviam rodar pelas ruas. "Subir no bonde, descer correndo". Eram os "Anos Dourados". O DNA era descoberto naqueles tempos. Uruguai ganhou a Copa de 50, mas o Brasil levou a de 1958 - a primeira! O clima ainda era de pós-guerra; geração Beat se formava, principalmente nos Estados Unidos. Na barbearia deviam entrar jovens usando jeans para aparar seus topetes.
Em 1968, quando a barbearia foi assumida por Ilson Schambeck, nos cinemas estava sendo lançado o clássico "2001: Uma Odisséia no Espaço". Nas rádios tocava "Se Você Pensa", do Roberto Carlos; a Jovem Guarda ainda reinava. Nas ruas deviam rodar alguns já velhos Cadillac's, Belair's e Ford's Victoria; talvez alguns DKW, Fuscas, Romi-Isettas e Gordinis recém saídos de fábrica. "Sessenta e oito, um mau tempo talvez"; fora do Brasil acontecia a Guerra do Vietnã.
A década de 1970 passou sob ditadura. Um "Porto não  muito alegre". O "milagre brasileiro" acontecia; e a censura da mídia ao mesmo tempo. Ali pertinho, na esquina democrática, alguns protestos devem ter acontecido; torturas e violência policial ao mesmo tempo. Mas, "Deu pra ti anos 70"; alguns hippies devem ter aparado suas madeixas por lá.
Os anos 1980 foram talvez a "Belle Époque" do rock gaúcho; Engenheiros do Hawaii, TNT, Taranatiriça, Cascavelletes. Nas ruas protestos novamente; Diretas Já e fim da ditadura militar. No fim da década caía o Muro de Berlin.
Em 1990' o salão já era antigo. A revolução digital ia iniciando; no salão velhas cadeiras. Os anos 2000' passaram também; os barbeiros lá liam seus jornais. 2010' entrou; o salão havia reduzido de tamanho e o filho do barbeiro fundou um bistrô ao lado da barbearia.

A barbearia estava toda reformada, sem perder o estilo mais que clássico. A navalha estava sempre afiada - e eu confiava totalmente nas mãos dos velhos barbeiros. Terei de buscar outro túnel do tempo. Talvez ali perto da saída do cinema – enquanto este também ainda estiver por lá.

Entrando na Barbearia Elegante eu viajava para as décadas de 1970, 60, 50... juro que as vezes eu via um velho Ford passando na rua.
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11 de set. de 2013

Notas de uma lavanderia


   Aguardo sentado enquanto a roupa seca, em uma comum lavanderia no centro. Fim de tarde - novamente. Na rua os carros fazem fila em cada semáforo vermelho. Fim de tarde - hora do rush.
   Sigo lendo Kerouak e suas Cenas de Nova York. Me sinto as vezes um pouco hipster; quase cena típica ler em uma lavanderia.
   Corre-corre. Todos seguem apressados, tentando fazer o tempo seguir mais rápido. Fim de tarde. Mães pegam seus filhos na saída da escola. Jovens buscam suas roupas na lavanderia. Filas de carros.
   Noite chega. Seguem carros, pessoas, roupas. Verde. Fim do tempo. Roupas secas.


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28 de ago. de 2013

Notas de um dia chuvoso


   O asfalto reflete as luzes do semáforo. Dia chuvoso. O ar parece saturado de água. Guarda-chuvas, botas e casacos desfilam pelas ruas.
   Labutei duramente durante o dia, aproveitando uma trégua do tempo. As botinas derraparam no lamaçal e as calças foram marcadas pela terra molhada jogada dos pneus - da mesma lama que atolou uma Kombi.
   Poças de água marcam o caminho. Sentado no ônibus ao menos aprecio uns minutos de proteção. Fazem uns quatro dias que chove sem aviso, em um chove e para cansativo. Sobre o colo segue aberto As Vinhas da Ira, de Steinbeck. Na memória surgem dias chuvosos nos anos 90. As roupas saturadas de água. O corpo gélido tremendo. Um banho quente resolvia tudo.
   Volto as ruas. Volta a chuva. Me escondo sob uma marquise. Aguardo a chuva passar. Mas não passa. Não vai passar. Encaro a chuva, correndo de abrigo em abrigo. Os cabelos e a barba vão acumulando a água. As roupas vão saturando aos poucos.
   Já não são mais anos 90. Já trocamos de década; de século; de milênio. Mas um banho ainda resolve tudo. Ou quase tudo.


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14 de ago. de 2013

Notas de um dia cinza


   O dia amanheceu cinza. Assim como os últimos dois. O vidro marcado pelos pingos dá um ar melancólico à paisagem da janela. Ao fundo um morro se esconde na neblina. Se escondem também as pessoas dentro de suas casas.
   Lá fora nada muda. O céu segue no mesmo tom. Não se vêem os aviões, não se ouvem sequer os carros. Fico tentado a correr para fora e assistir as ruas vazias; um resfriado me impede.
   Enquanto isso um livro me faz companhia. Kerouak vira meu companheiro.


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31 de jul. de 2013

Notas de um ônibus


   Lá fora tudo passa; rápido pela janela. Passam as ruas, carros, luzes, pessoas. Noite inicia. Paradas cheias de pessoas vazias. O corre corre de todos os dias, intensificado pelo último útil da semana.
   Cruzamentos congestionados de carros com motoristas solitários. Carros que levam  e trazem pessoas do trabalho; que trabalham para poderem pagar seus carros, para poderem ir de carro para o trabalho.

   No colo segue um livro aberto. Esperando ser lido. Mas pela janela há tantas histórias não lidas; e que nem esperam ser.

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17 de jul. de 2013

Notas de uma ru(ss)a


   Acabo de conversar brevemente com uma russa em plena Rua da Praia; não lembro de qual cidade ela citou que veio, mas lembro que falou que era um local muito frio. Provavelmente deve estar se sentindo em casa agora, visto que chegou o outono oficialmente. As ruas recendem a uma mistura de cheiros de casacos novos e guardados por longo tempo.
   A tal russa tinha um jeito de budista; na real acho que era hare-krishna. Distribuía livros de auto-ajuda e espirituais. A oferta era livre, quaisquer moedinhas. Acabei não levando nada. Fiquei me sentindo mal por isto.
   Entrei em uma cafeteria e pedi um café para levar. O dia acordou cinza e ainda não ganhou cores. Mas todos parecem mais vivos; talvez pelo contraste de tons. Andei com o café na mão; continuei me sentindo mal. Vou voltar e comprar qualquer livro. A história por trás do livro é ainda mais interessante.


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22 de mai. de 2013

Notas de um vagão


   Estou com 25 anos; quase 26. Relativamente ainda longe dos 30, mas já sofrendo uma certa depressão adiantada.
   Estudei, me formei, arrumei alguns empreguinhos. Mas por aí ficou; nenhuma grande mudança ou notável conquista. Nada que poderia me gabar no futuro; nem os famosos 15 minutos de fama.
   Com menos idade que isto, muitos ganharam medalhas olímpicas, outros apareceram na mídia fazendo sucesso com bandas ou similaridades artísticas. Outros já haviam lançado livros que se tornaram clássicos. 
   Não tenho filhos, nem sei se os quero.

   Sobrevivo com uma espécie de emprego; uma bolsa de estudos que apenas me garante o pão de cada dia e um teto - não que precise de mais, é claro, mas certamente menos do que queria.
   Não fiz grandes viagens ou aventuras, estou longe do emprego dos sonhos - se é que o tenho em mente.
   Vivo a vida apenas sobrevivendo dia após dia.

   Li a algum tempo o livro do Kerouac, onde o jovem americano percorreu as estradas vivendo algumas loucuras juvenis. Eram outros tempos, hoje seria um "perigo". Tolkien lutou na Grande Guerra; saiu vivo e criou um mundo inteiro. Rowling diz que criou sua história em uma viagem de trem - estou em um agora, saindo de uma cidade da metrópole e indo de volta à capital.
   Minha maior mudança de vida foi uma mudança de cidade; penso diariamente se fiz a coisa certa sem chegar a uma conclusão. 
   E acho que pensaria diariamente se não o tivesse feito.

   No vagão que estou há apenas outras 9 pessoas; todos homens. Um policial escreve em uma apostila, outro rapaz mexe em um celular. Minha estação ainda está longe. 
   ...assim como a solução dos meus problemas.


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23 de mar. de 2013

Confraria do Ranço: a faixa de segurança


Pouco antes da faixa,um motorista buzina enfurecido. Culpa do motorista em sua frente, que parou para os pedestres passarem. O carro da frente anda e o de trás avança 10 metros, parando em cima da faixa (trânsito congestionado/parado). Os pedestres que estavam passando (já que o trânsito estava parado) reclamam para o que parou em cima da faixa... e há um bate boca no local!
Mas a culpa é do pedestre, que passa na faixa com o sinal verde. Não importa se o trânsito está parado; pedestre tem que ficar esperando até fechar o sinal.
Afinal, a rua é dos carros... e dane-se se elas passam por entre as calçadas. E se depois o carro ficar sobre a faixa, com sinal fechado... paciência! Culpa do trânsito ruim das grandes cidades.
Coitado do motorista.
Coitado do motorista.
Coitado do motorista... parado em pleno trânsito, sentado no seu carro. Que se dane o pedestre que está livre ao vento... debaixo do sol. Tendo de andar pra casa.

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27 de fev. de 2013

Um sustinho de vez em quando... só pra se manter acordado.

Olha que louca é a vida...
Recebi a bela notícia de que fui contaminado com um metal pesado. Mais: fui contaminado por tomar café! Não bastasse... o café era feito com a água mais pura que poderia ser encontrada; um lamentável acaso levou ao acidente. Enfim...

Lendo os sintomas... descobri que tinha quase todos. E os que não tinha, logo teria. Auto-sugestão! Porém mesmo sabendo disto, não bastaria para eliminá-los. Dentre os sintomas, algo como: dores de cabeça, insônia, cansaço, tontura, etc. Sintomas que fariam mais sentido, se eu não tivesse passado as últimas duas noites quase em claro, por tomar muito café durante o dia, jogar muitas horas no computador durante a noite, e ainda assistir um longo episódio de uma série antes de dormir.

Olha que louca é a vida....
Tive graves sintomas causados por jogos, café e séries.

Bem... caso eu não sofra graves danos, no mínimo me fez pensar - nem que por poucos segundos - um pouco na vida. E vi que queria viver!

... que louca é a vida.

[Editado] falso alarme... tudo que senti foram efeitos colaterais imaginários. Que louca é a vida!

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16 de jan. de 2013

Fogos no céu

Ao longe os fogos explodem no céu.
Virada de ano; mais um ano, outro qualquer. Parentes e amigos se revezam em uma falsa alegria imposta pela data. Promessas, planos e projetos - iguais a todos anos anteriores.
Em uma outra janela qualquer, ao longe, um outro qualquer assiste televisão - um programa ou filme aleatório. Seja lá quem for este "qualquer um"... não parece preocupado com qualquer tradição ou falsas alegrias. Um dia qualquer hoje, outro amanhã. Só o que muda é o calendário. Números.
Ao longe estouram os fogos, de todas as cores, formas e sons.
... que o próximo ano seja melhor.

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texto escrito em um celular, na virada de 2012 para 2013.
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5 de set. de 2012

Diários de Mudanças



Mala aberta sobre a cama.
Roupas diversas empilhadas.
Caixas pelo chão.
Poeira pelo ar. 

Começo a organizar tudo para a mudança. Estarrecido fico com o volume de inutilidades guardadas durante a vida. Encaixoto o que realmente importa e sigo em frente. Abrir a mão de lembranças, recordações e ser menos sentimental; o pequeno apartamento não terá espaço para as caixas e caixas de fotos de outros tempos, coleções ou livros. Várias lembranças físicas já desfeitas, encaixotadas e guardadas em algum lugar da velha casa. Agora sigo apenas com a subsistência... só sobrevivência.

Mala novamente aberta.
Roupas novamente empilhadas. 
Caixas novamente pelo chão. 
Poeira pelo ar (e pelos móveis).

O apartamento vazio. Uma vida que cabe em poucas caixas. De sobre mesas e gavetas, tudo arrastado para caixas; a preocupação com organização ficará para o próximo apartamento. Um problema para meu 'eu futuro'. E a geladeira, mais vazia do que nunca.
                    
A tão comum sensação de estar esquecendo algo vai tomando conta. Mas o que realmente importa para a minha sobrevivência, agora cabe em uma mochila. Como um soldado em plena guerra.


Mala novamente aberta.
Roupas novamente empilhadas. 
Caixas novamente pelo chão. 
Poeira pelo ar (e pelos móveis).
Novo apartamento. Nova mudança.

   Os móveis montados, mas vazios. Nenhuma decoração, paredes em branco. A sensação contínua de sempre estar faltando algo; a sensação de estar vivendo em um hotel.

As roupas não estão empilhadas.
As caixas não estão pelo chão.
Mas a poeira está pelo ar...


   O novo apartamento ainda vazio. Os sons ecoam nas paredes. Uma sensação mista e confusa sobre a amplitude de espaço; o apartamento ainda é definido apenas por metros quadrados. Outros vizinhos, mesmos problemas.
   No piso, marcas da história; móveis fantasmas, manchas pelo chão, madeira bronzeada. Resquícios de outras épocas, outras pessoas, outras memórias. Em breve outros móveis; mas mesmos objetos, fotos e decorações.
   Por novas ruas passarei em minha rotina; novas visões terei, até pelas mesmas ruas que já passei. Pela janela, novos horizontes; outra paisagem, outra visão, mesma cidade. Levará dias até se acostumar com o que vejo através do vidro, e até lá persistirá a sensação de uma nova vida. Outra vida, mas mesma pessoa.
   Espero que agora persista um tempo de poucas mudanças. Ou... talvez... alguma pequena mudança venha para o bem: novas mudanças, nova vida.
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1 de ago. de 2012

Diário de Mudanças [4]

Roupas diversas novamente empilhadas. Caixas novamente pelo chão.
Poeira pelo ar (e pelos móveis).
Novo apartamento. Nova mudança.

Os móveis montados, mas vazios. Nenhuma decoração, paredes em branco.
A sensação contínua de sempre estar faltando algo.
A sensação de estar vivendo em um hotel.

Casa... que na verdade é um apartamento.
Mas 'casa' é onde vive nosso coração, dizem.
Lar... ainda não pode ser considerado.
Levará algum tempo até esta 'casa' se transformar num novo 'lar'.
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6 de jun. de 2012

O ônibus

   Entrei no ônibus após muito esperar. Lotado, como previsto. Com grande esforço entro, e consigo me estabelecer no segundo degrau da escada. Ainda estava longe meu destino, mas estava ansioso por pelo menos passar pela roleta; e a cada parada, mais um vivente tentava estabelecer seu espaço, onde já não cabia mais ninguém. Lotação: 132%.
   Trancos e solavancos foram até que à roleta pude chegar; com o cobrador me encarando e pressionando-me a passar, fiz de tudo para avançar para a área além da catraca; porém nem um passo era possível além deste limite, a roleta sequer giraria. "Um passinho à frente, favor", gritava à cada parada o cobrador fanfarrão; a cada grito, dezenas de pessoas olhavam com ironia para aquele que tentava comandar, sentado em seu trono.
   Certo momento consegui passar da etapa 'roleta'. Não por vontade própria claro, mas pelo andar do grupo como um só. Estava agora naquele momento onde todos que permanecem em pé pedem piedade aos sentados... porém os sentados sofrem com o calor gerado pelos que permanecem em pé. Nenhum movimento é possível para a maior parte dos passageiros, mas foi possível para alguém ligar o som de um celular... com a pior música que você pode imaginar. Ah, DJ's de ônibus... vieram ao mundo para gerar caos; todos no entorno olham com irritação, mas o responsável pela "animação da festa" finge que nada vê. Olho para os lados procurando uma brecha para ir ao mais longe possível do som, porém outros pensaram o mesmo aparentemente, e em minha frente surge um lugar para sentar; novo dilema.
   Sentar no ônibus: a honra do proletariado! Música ruim enquanto sigo sentado: a penitência! Atrás de mim duas menininhas discutem a última festa, com detalhes que - sinceramente - eu preferia não ter escutado... perdi ainda mais minhas esperanças no futuro do país. Ao meu lado alguém dorme, meio roncando, meio babando. De pé, do outro lado, alguém que eu classificaria como 'um tipo estranho'. 
   Chega enfim o momento de alívio; a cada parada o número de pessoas no ônibus reduz... até ficar quase vazio. Sinal que se aproxima a minha parada. Apenas mais alguns solavancos e uma ou duas músicas do celular de alguém, e me levanto. Toco o sinal e na parada desço. Que alívio... ainda tenho umas 6 horas até pegar o ônibus de volta! 

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4 de abr. de 2012

Antes dos 30...

   Estou na metade dos 20... mais exatamente naquele limiar entre '20 e poucos' e 'quase 30' anos.
   Vejo tantos fazendo suas promessas de 'coisas à fazer antes dos 30'. Penso que talvez seja hora de fazer uma também - com coisas que não alcancei ainda, claro... não vou mentir pra mim mesmo! Talvez seja estimulante... talvez eu não conclua nenhuma. Talvez fique ótima em 10 itens (não necessariamente em ordem):

01 - Ser totalmente independente;
02 - Estar financeiramente estabilizado;
03 - Ser um 'doutor' (doutorado!);
04 - Aprender fluentemente mais uma língua;
05 - Fazer uma viagem de mochileiro pela Europa;
06 - Comprar uma moto (talvez uma chopper) e fazer uma longa viagem;
07 - Fazer mais tatuagens - e cobrir o torso inteiro;
08 - Ter lido mais de 200 livros;
09 - Escrever um livro mais livros;
10 - Fazer uma lista de 'coisas para fazer antes dos 50 anos'.

   ...ou "Percorrer um dos caminhos de Santiago de Compostela (à pé!), pintar um quadro, aprender a tocar piano, comprar um carro elétrico, ser dono de uma empresa, fazer carteira D de motorista, comprar um casa/apartamento, iniciar uma 'coleção', investir na bolsa, comprar um cachorro, ...".
   Tantas coisas caberiam nesta lista... mas como os 40 são os novos 30 - e minha geração tem uma grande expectativa de vida -, fica mais pra frente.
   Mas na real... sei que não vou completar quase nenhum destes itens até meus 30 anos - alguns, nem depois deles. Talvez porquê esta lista está sendo feita por um cara com outras idéias, um cara ainda de '20-e-poucos-quase-tantos anos'... mas também, talvez, porquê o importante é apenas sonhar e ter metas, nem sempre necessariamente cumpridas.
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28 de mar. de 2012

Diário de Mudanças [3]

   As roupas não estão empilhadas. As caixas não estão pelo chão. Mas a poeira já está pelo ar...
   O novo apartamento ainda vazio. Os sons ecoam nas paredes. Uma sensação mista e confusa sobre a amplitude de espaço; o apartamento ainda é definido apenas por metros quadrados.
   No piso, marcas da história; móveis fantasmas, machas pelo chão, madeira bronzeada. Resquícios de outras épocas, outras pessoas, outras memórias. Em breve outros móveis; mas mesmos objetos, fotos e decorações.
   Pela janela, novos horizontes; outra paisagem, outra visão, mesma cidade. Levará-se dias até se acostumar com o que vejo através do vidro, e até lá persistirá a sensação de uma nova vida. Outra vida, mas mesma pessoa.
   Por novas ruas passarei em minha rotina; novas visões terei, até pelas mesmas ruas que já passei. Outros vizinhos, mas mesmos problemas.
   Agora, ao menos, uns dois anos de uma mesma vida me esperam pela frente, no mesmo local; espero que não ocorram novas mudanças nesse meio tempo... ou... talvez... alguma pequena mudança venha para o bem: novas mudanças, nova vida.
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22 de fev. de 2012

Diário de Mudanças [2]

Roupas diversas novamente empilhadas. Caixas novamente pelo chão. Poeira pelo ar (e pelos móveis).

O apartamento cada vez mais e mais vazio. Minha vida cabe em caixas - em poucas caixas. Ando mudando de casa, mais do que de celular (e isto, nos dias atuais, é muita coisa!).

De sobre mesas e gavetas, arrasto tudo para uma caixa... no próximo apartamento me preocuparei em arrumá-los. Isso é problema para meu 'eu futuro'. A geladeira, mais vazia do que nunca. E a alimentação, nem comida congelada: tele-entrega.

Me sinto como indo à faculdade; aquela preocupação de estar esquecendo alguma coisa - até se tocar de que o que importa está na pasta/mochila. O que realmente importa para a minha sobrevivência, agora cabe em uma mochila. Como um soldado em plena guerra.

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15 de fev. de 2012

Os óculos

Desci as escadas, abri o portão e pisei na rua. Poucos passos precisei para me tocar de que algo não estava certo. O mundo estava diferente; sem cor, nublado, estranho. Conferi as horas no relógio e olhei para o céu tentando descobrir se vinha chuva. Tudo aparentava a normalidade usual. Dei um passo, e ia seguir meu rumo diário, quando fui limpar meus óculos - um vício dos míopes. Levantei a mão para segurar a haste, e quase acertei meu olho. Maldição... esqueci meus óculos em casa!

Meia volta, volver. Abre portão, sobe escadas, pega os óculos de sobre a mesa, e retoma rotina. Bem que notei que o mundo não estava em HD. Ah escravidão, não vivo sem meus óculos; mas antes que me recomendem usar lentes... eu gosto de usar óculos. Poucos me entendem... mas meus óculos não são apenas uma armação que segura lentes curvas, presa em minhas orelhas... é mais que isso. É estilo. E não, não estou dizendo que fico mais bonito ou estiloso com eles. Mas representam-me. Tipo quando você está em algum local e dizem: "Ali... do lado do cara de óculos"; ou mesmo: "Um cara alto... que usa óculos!". Não quero ser apenas o "cara alto"; seria mais difícil de lembrarem de mim. Divaguei demais...

25 de jan. de 2012

Cabide em forma de cadeira

   Por um canto de meu quarto paira uma cadeira. Na real poucas vezes sentei nela. 
Ela serve mesmo como cabide!

   Até cogitei comprar um daqueles cabideiros tradicionais, verticais, com várias pontas. Mas fiquei na dúvida entre um de metal e um de madeira, e ainda tinha a questão da cor; mas claro, um cabideiro tradicional destes não combinaria com o estilo do meu quarto. Uma cadeira tem mais irreverência.

   A cadeira, além do estilo descontraído e jovial, tem outros benefícios: serve também como 'cadeira'. Quando necessário, é só tirar todas as roupas empilhadas e jogá-las sobre a cama e sentar-se. Algo tipo um 2 em 1. Tudo bem, as roupas ficam meio amassadas, mas é bem prático. Garanto!

   Eu andei procurando outros objetos similares para tal utilização; pensando em mudar um pouco o feng-shui do quarto. Até me recomendaram uma esteira ergométrica - garantiram que em pouquíssimo tempo ela funciona super bem como cabide -, mas não achei que combinaria com a cor da minha parede.

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18 de jan. de 2012

Diário de Mudanças [1]

Mala aberta sobre a cama. Roupas diversas empilhadas. Caixas pelo chão. Poeira pelo ar. 

Começo a limpar as coisas para a mudança; me impressiono com a quantidade de porcarias que se guarda... coisas antigas... papeis velhos... desnecessários... o que importa se encaixota e segue-vida. Abrir a mão de lembranças, recordações e ser menos sentimental; na quitinete não vai caber suas caixas e caixas de fotos de outros tempos... ou sua coleção de latinhas... ou todos seus livros... ou seu sofá preferido.

E olha que eu já tinha me desfeito de muitas lembranças físicas. Tudo encaixotado em algum lugar na velha casa. Vou levar agora apenas a subsistência... só itens de sobrevivência. Só não levo apenas um uniforme e um canivete-suíço, pois um pingo de conforto ainda me é possível. Ainda!

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