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9 de out. de 2013

Carnívoros


   "Libertem as proles" - gritavam os manifestantes em mais um protesto contra o consumo de carne humana, em frente ao maior matadouro do estado.
   Protestos do gênero já haviam se tornado comuns; ocorrendo desde o início da produção, em um passado nem tão distante. "Libertem as proles - são humanos como nós" - gritavam alguns manifestantes. "As proles também têm sentimentos" - berravam outros.
   Criados desde o nascimento (nos chamados "berçários"), as proles de modo algum eram vistas como "humanos" pelas massas. Não falavam, não se vestiam, nem nada do gênero.
   "É necessário! O mundo não sobreviveria sem as proles atualmente" - afirmavam os produtores. Nada se perdia neste negócio; as peles, cabelos e até o esterco viravam produtos. Era definitivamente um lucrativo sistema. "Nascem para isto" - ressaltavam os consumidores.
   Para o povo em geral esta produção era sequer estranhada. Nasceram e cresceram comendo carne humana; nem contestavam os porquês. Este ingrediente fazia parte da dieta geral, estando presente em diversas receitas e modos de preparos.
   "Não somos animais ou coisa do gênero para consumir mato ou carne de bicho" - diziam exaltados os carnívoros frente aos argumentos dos ativistas.
   As autoridades apenas controlavam os escassos manifestantes no local. Aos poucos o protesto se dissipava. Em breve ocorreria novamente - sem causar impactos na produção.


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27 de set. de 2013

Há muito tempo que ando na rua de uma Elegante Barbearia


Fundada em 1947, a Barbearia Elegante vai fechar as portas...

2013. A barbearia localizada quase na esquina da Jerônimo Coelho com a Borges era (ou ainda é) um pedacinho do passado, no centro de Porto Alegre. A aposentadoria, depois de mais de 60 anos, deve ser um sinal dos novos tempos. Os barbeiros que não irão "guardar na gaveta suas navalhas", vão migrar para outras barbearias e salões ainda vivas.
"Oh, fica com o meu cartão". - disse o meu barbeiro - "Vou estar agora ali na travessa, perto da saída do cinema". Ali já não é mais exatamente a saída do cinema. O cinema já fechou praticamente - uma ou duas salas permanecem apenas.

Foto: Instagram - Roberta Malta (http://instagram.com/p/Y5ZFVCCqUN/)

Os cinemas eram sucesso em 1947, quando a barbearia abriu. Nos cartazes provavelmente estavam "Copacabana" - com  Groucho Marx e Carmen Miranda - e “Tarzan e a Caçadora”. Era pós guerra; os Aliados haviam vencido o Eixo dois anos antes. A geração "baby boom" iria cortar seus cabelos por ali. Na rua, em frente, deviam passar ou estar estacionados alguns Ford Mercury, Simca's e Chevrolet's. Talvez movidos à gasogênio - já que a gasolina estava em falta.
Em 1950' os bondes deviam rodar pelas ruas. "Subir no bonde, descer correndo". Eram os "Anos Dourados". O DNA era descoberto naqueles tempos. Uruguai ganhou a Copa de 50, mas o Brasil levou a de 1958 - a primeira! O clima ainda era de pós-guerra; geração Beat se formava, principalmente nos Estados Unidos. Na barbearia deviam entrar jovens usando jeans para aparar seus topetes.
Em 1968, quando a barbearia foi assumida por Ilson Schambeck, nos cinemas estava sendo lançado o clássico "2001: Uma Odisséia no Espaço". Nas rádios tocava "Se Você Pensa", do Roberto Carlos; a Jovem Guarda ainda reinava. Nas ruas deviam rodar alguns já velhos Cadillac's, Belair's e Ford's Victoria; talvez alguns DKW, Fuscas, Romi-Isettas e Gordinis recém saídos de fábrica. "Sessenta e oito, um mau tempo talvez"; fora do Brasil acontecia a Guerra do Vietnã.
A década de 1970 passou sob ditadura. Um "Porto não  muito alegre". O "milagre brasileiro" acontecia; e a censura da mídia ao mesmo tempo. Ali pertinho, na esquina democrática, alguns protestos devem ter acontecido; torturas e violência policial ao mesmo tempo. Mas, "Deu pra ti anos 70"; alguns hippies devem ter aparado suas madeixas por lá.
Os anos 1980 foram talvez a "Belle Époque" do rock gaúcho; Engenheiros do Hawaii, TNT, Taranatiriça, Cascavelletes. Nas ruas protestos novamente; Diretas Já e fim da ditadura militar. No fim da década caía o Muro de Berlin.
Em 1990' o salão já era antigo. A revolução digital ia iniciando; no salão velhas cadeiras. Os anos 2000' passaram também; os barbeiros lá liam seus jornais. 2010' entrou; o salão havia reduzido de tamanho e o filho do barbeiro fundou um bistrô ao lado da barbearia.

A barbearia estava toda reformada, sem perder o estilo mais que clássico. A navalha estava sempre afiada - e eu confiava totalmente nas mãos dos velhos barbeiros. Terei de buscar outro túnel do tempo. Talvez ali perto da saída do cinema – enquanto este também ainda estiver por lá.

Entrando na Barbearia Elegante eu viajava para as décadas de 1970, 60, 50... juro que as vezes eu via um velho Ford passando na rua.
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22 de mai. de 2013

Notas de um vagão


   Estou com 25 anos; quase 26. Relativamente ainda longe dos 30, mas já sofrendo uma certa depressão adiantada.
   Estudei, me formei, arrumei alguns empreguinhos. Mas por aí ficou; nenhuma grande mudança ou notável conquista. Nada que poderia me gabar no futuro; nem os famosos 15 minutos de fama.
   Com menos idade que isto, muitos ganharam medalhas olímpicas, outros apareceram na mídia fazendo sucesso com bandas ou similaridades artísticas. Outros já haviam lançado livros que se tornaram clássicos. 
   Não tenho filhos, nem sei se os quero.

   Sobrevivo com uma espécie de emprego; uma bolsa de estudos que apenas me garante o pão de cada dia e um teto - não que precise de mais, é claro, mas certamente menos do que queria.
   Não fiz grandes viagens ou aventuras, estou longe do emprego dos sonhos - se é que o tenho em mente.
   Vivo a vida apenas sobrevivendo dia após dia.

   Li a algum tempo o livro do Kerouac, onde o jovem americano percorreu as estradas vivendo algumas loucuras juvenis. Eram outros tempos, hoje seria um "perigo". Tolkien lutou na Grande Guerra; saiu vivo e criou um mundo inteiro. Rowling diz que criou sua história em uma viagem de trem - estou em um agora, saindo de uma cidade da metrópole e indo de volta à capital.
   Minha maior mudança de vida foi uma mudança de cidade; penso diariamente se fiz a coisa certa sem chegar a uma conclusão. 
   E acho que pensaria diariamente se não o tivesse feito.

   No vagão que estou há apenas outras 9 pessoas; todos homens. Um policial escreve em uma apostila, outro rapaz mexe em um celular. Minha estação ainda está longe. 
   ...assim como a solução dos meus problemas.


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4 de mai. de 2013

A poesia está na moda...


   Após o livro de Paulo Leminski chegar no topo da lista dos mais vendidos, parece que a poesia e os poemas chegaram juntos no gosto popular - ou, ao menos, na moda (a transposição representativa visual generalizada de uma população... ou seja, se não gostam, pelo menos representam... fingem).

1 de mai. de 2013

Batalhas

   Era uma vez, em um lugar muito distante, uma pequena vila de grandes guerreiros.
   Estes guerreiros estudavam técnicas de batalha por muitos anos. E treinavam diariamente para uma guerra que um dia viria.
   Após anos e anos de estudo e treinos nas técnicas gerais, especializavam-se em uma arma apenas. Sobre esta arma sabiam mais que os demais e manejavam-na com maestria.
   Com a especialização na arma, ainda passavam anos e anos em treinamento com a mesma, até atingirem os níveis exigidos pelos anciões da aldeia. Os anciões eram respeitados por seu extenso conhecimento nas artes da guerra; haviam estudado por anos e anos no assunto - e lutado muitas guerras, diziam.
   Estando assim no nível superior de estudos, os guerreiros especializados repassavam seu conhecimento adquirido para os novatos guerreiros que iniciavam seus estudos nas artes da guerra.
   Por vezes alguns destes guerreiros se iam da aldeia e não mais voltavam. "Estão batalhando", diziam os anciões. Porém raramente algum destes retornava para contar suas experiências. "As batalhas acabam, mas a guerra sempre continua", diziam.
   Mas para os jovens guerreiros estas batalhas nunca chegavam. O desejo de luta real era iminente - desejavam colocar em prática seus conhecimentos teóricos. Entretanto para alguns guerreiros a guerra jamais chegava; alguns sequer acreditavam que esta realmente existia. Mas seguiam confiando no que os anciões pregavam - com uma fé religiosa.

   O tempo passava, passavam os guerreiros e os anciões. Só não passavam as guerras - repetiam. E enquanto as batalhas não chegavam, seguiam estudando. Com o tempo a maioria chegaria ao nível de ancião e repassaria os conhecimentos, como um infinito ciclo. Os demais seguiriam, tendo fé que um dia chegaria sua vez.

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23 de mar. de 2013

Confraria do Ranço: a faixa de segurança


Pouco antes da faixa,um motorista buzina enfurecido. Culpa do motorista em sua frente, que parou para os pedestres passarem. O carro da frente anda e o de trás avança 10 metros, parando em cima da faixa (trânsito congestionado/parado). Os pedestres que estavam passando (já que o trânsito estava parado) reclamam para o que parou em cima da faixa... e há um bate boca no local!
Mas a culpa é do pedestre, que passa na faixa com o sinal verde. Não importa se o trânsito está parado; pedestre tem que ficar esperando até fechar o sinal.
Afinal, a rua é dos carros... e dane-se se elas passam por entre as calçadas. E se depois o carro ficar sobre a faixa, com sinal fechado... paciência! Culpa do trânsito ruim das grandes cidades.
Coitado do motorista.
Coitado do motorista.
Coitado do motorista... parado em pleno trânsito, sentado no seu carro. Que se dane o pedestre que está livre ao vento... debaixo do sol. Tendo de andar pra casa.

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16 de jan. de 2013

Fogos no céu

Ao longe os fogos explodem no céu.
Virada de ano; mais um ano, outro qualquer. Parentes e amigos se revezam em uma falsa alegria imposta pela data. Promessas, planos e projetos - iguais a todos anos anteriores.
Em uma outra janela qualquer, ao longe, um outro qualquer assiste televisão - um programa ou filme aleatório. Seja lá quem for este "qualquer um"... não parece preocupado com qualquer tradição ou falsas alegrias. Um dia qualquer hoje, outro amanhã. Só o que muda é o calendário. Números.
Ao longe estouram os fogos, de todas as cores, formas e sons.
... que o próximo ano seja melhor.

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texto escrito em um celular, na virada de 2012 para 2013.
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3 de out. de 2012

Memórias desbotadas

   Lamentável pensar que as lembranças estão se limitando apenas a memórias. Algo que ocorre de tempos em tempos, mas apavorante pensar que está ocorrendo tão cedo.
   Poucos os antigos prédios que permanecem em pé. Os carros já não são os mesmos; algumas pessoas também já se foram. Construções caem para dar lugar a novas construções. Apenas as ruas seguem as mesmas.
   Nas fotografias seguem vivos os prédios, em preto e branco - de locais que já foram coloridos. Memórias, já desbotadas. As lembranças um dia se vão; as fotos amarelam; os filmes envelhecem; os papéis se perdem. A história se apaga.
   As poucas estruturas que seguem em pé, são toda a viva lembrança de uma geração. O que resiste, é a memória de uma cidade. Uma lembrança a cada dia mais esquecida.

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6 de jun. de 2012

O ônibus

   Entrei no ônibus após muito esperar. Lotado, como previsto. Com grande esforço entro, e consigo me estabelecer no segundo degrau da escada. Ainda estava longe meu destino, mas estava ansioso por pelo menos passar pela roleta; e a cada parada, mais um vivente tentava estabelecer seu espaço, onde já não cabia mais ninguém. Lotação: 132%.
   Trancos e solavancos foram até que à roleta pude chegar; com o cobrador me encarando e pressionando-me a passar, fiz de tudo para avançar para a área além da catraca; porém nem um passo era possível além deste limite, a roleta sequer giraria. "Um passinho à frente, favor", gritava à cada parada o cobrador fanfarrão; a cada grito, dezenas de pessoas olhavam com ironia para aquele que tentava comandar, sentado em seu trono.
   Certo momento consegui passar da etapa 'roleta'. Não por vontade própria claro, mas pelo andar do grupo como um só. Estava agora naquele momento onde todos que permanecem em pé pedem piedade aos sentados... porém os sentados sofrem com o calor gerado pelos que permanecem em pé. Nenhum movimento é possível para a maior parte dos passageiros, mas foi possível para alguém ligar o som de um celular... com a pior música que você pode imaginar. Ah, DJ's de ônibus... vieram ao mundo para gerar caos; todos no entorno olham com irritação, mas o responsável pela "animação da festa" finge que nada vê. Olho para os lados procurando uma brecha para ir ao mais longe possível do som, porém outros pensaram o mesmo aparentemente, e em minha frente surge um lugar para sentar; novo dilema.
   Sentar no ônibus: a honra do proletariado! Música ruim enquanto sigo sentado: a penitência! Atrás de mim duas menininhas discutem a última festa, com detalhes que - sinceramente - eu preferia não ter escutado... perdi ainda mais minhas esperanças no futuro do país. Ao meu lado alguém dorme, meio roncando, meio babando. De pé, do outro lado, alguém que eu classificaria como 'um tipo estranho'. 
   Chega enfim o momento de alívio; a cada parada o número de pessoas no ônibus reduz... até ficar quase vazio. Sinal que se aproxima a minha parada. Apenas mais alguns solavancos e uma ou duas músicas do celular de alguém, e me levanto. Toco o sinal e na parada desço. Que alívio... ainda tenho umas 6 horas até pegar o ônibus de volta! 

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17 de dez. de 2011

A necessidade de ser feliz

Algumas pessoas possuem a necessidade de ser feliz. Não estou falando de querer ser feliz, ou buscar a felicidade. Algumas pessoas tem a ne-ces-si-da-de.

Lutar, morrer, sofrer para ser feliz. Definir: amanhã vou ser feliz / hoje de noite vou ser feliz. Creio que algumas pessoas se programam: "hei, hoje vou ao cinema/teatro para dar muita risada, seja lá qual for o filme". Bom ou ruim. Besteirol ou comédia dramática. Na realidade acho que algumas criaturas dariam risada até em suspense, se tivessem se programado para tal. No teatro o povo ri até do aviso de que a peça vai começar, se o tema da peça for 'comédia'.

O mundo anda estressado, as pessoas estão sempre mentalmente cansadas. Querem ser felizes. Querem dar risadas. A cada ano mais e mais filmes de comédia besteirol (daqueles que nem se precisa pensar para assistir). As propagandas de TV são comédias, os programas são para dar risadas, revistas, séries, sites. 

Não nego, eu também quero ser feliz. Também gosto de dar risadas. Mas, por favor, me expliquem porquê aqueles idiotas sentados no meu entorno no cinema, estavam rindo daquele filme?! Sinceramente, tenho certeza que eles não entendiam as "piadas" (nem tinham "piadas"...o filme nem era comédia!!!). 

7 de nov. de 2011

Ampulheta desregulada


Foi mau pessoal, eu estava meio afastado nos últimos dias... falta de tempo, "sá'com'é".
Acho que aqui no meu entorno o tempo sofre uma interferência do meu ego e o sol gira mais rápido em seu caminho diário no céu. Este mesmo efeito, consequentemente, atinge o tempo em toda sua amplitude, forçando meu ano a passar mais rápido, o que me força a dizer por todo 2° semestre: "Nossa, como o ano passou rápido, não é?!".

O complicado dessa mudança, na inconstante velocidade do tempo, é que minhas noites passam muito rápido... lhes juro que mal pisco os olhos e o meu relógio acelera sua rotação nos malditos 360° presentes no mostrador.
E sempre acordo quando os números estão iguais no digital: 1:11. 2:22, 3:33; alguma maldição adicional, assunto para outro momento.

Adicionalmente a esta preocupante variação temporal, é que durante o dia, quando estou no trabalho, tenho impressão de que o tempo passa m-a-i-s d-e-v-a-g-a-r. Juro! Mas enfim, de modo geral, numa média ponderada, meu tempo passa mais rápido que para o resto dos seres com polegar opositor. E consequentemente (certamente vocês me compreendem, claro!) tenho de me esforçar sobre-humanamente para gerenciar todas minhas atividades. Alguns de vocês talvez não compreendam, certamente, pois seu dia se divide em longas 24h... puff, quem me dera.

Em suma, decorrente desta minha complicada e pouco estudada condição, acabo por não conseguir ler muito durante o ano, possuindo uma baixa eficiência para tal atividade; mesma complicação se dá para escrever neste papel virtual.
Quem me dera ter descoberto esta deformação temporal mais cedo, pois tal resposta seria circunstancial para argumentar com meus professores em relação a algumas baixas notas. Minha condição é especial, claro.

Eu até gostaria de debater mais, e argumentar minha teoria com os caros leitores deste www, porém tá começando a novela... tchau.

Kapletto

(originalmente escrito para o blog http://www.vidadeleitor.com/)