26 de dez de 2012

Limbo dos guarda-chuvas

Certa manhã encontrei uma porta jamais vista em meu apartamento. Era o "limbo dos guarda-chuvas". Haviam canetas por todos os lados, prendedores, guarda-chuvas e tudo que era perdido sem razão. Depois voltei a dormir, maravilhado com aquela loucura. Mas é uma pena... nunca mais encontrei aquela porta! Sigo perdendo minhas canetas.
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19 de dez de 2012

Profissão: sonhador

Sempre questionam às crianças sobre o que elas desejam de seu futuro. Questionam os adolescentes também. Questionam até os jovens graduandos. Mas quase ninguém questiona os adultos. Ninguém questiona os idosos. Como se não houvessem mais sonhos e projetos. Como se tudo tivesse dado certo. Apenas colhendo as glorias. O adulto bem sucedido, pai de dois filhos, proprietário de um carro e um apartamento... no fim das contas pode só ter sonhado em ser bombeiro ou astronauta - acabou sendo um mero engenheiro. Os sonhos mudam com o tempo;  a criança que queria ser bombeiro vira o adolescente que queria ser engenheiro, que queria ser ator de teatro, que queria ser escritor. Acaba morrendo com o título de: "sonhador".
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12 de dez de 2012

Pérolas na janela

   O colar pairava no pescoço da dama. Não haviam motivos festivos para o uso de tais adornos, mas a beleza intrínseca deste despertava sentimentos inexpressivos. Sentada fronte à janela, a dama observava o passar da rua - vestida com um pijama... e um colar de pérolas.
   Pela rua passavam carros, cavalos, motocicletas; passavam pessoas, cachorros e o tempo - e era apenas o tempo que notava aquela dama. Fizesse o tempo chuva ou sol, frio ou calor, em frente à janela haveria um colar de pérolas.
   Pérolas sempre foram um sinal de luxo, levavam anos para desenvolver-se - custavam altos valores; e eram valorizados pela alta sociedade. Mas pela baixa luz do cômodo, apenas a dama enxergava a rua, e a rua não via o colar que pendia em seu pescoço.
   Há quem diga que a vida é feita para ser vivida, há quem diga que se nasce para morrer. Uns passam o tempo correndo, uns passam observando. Outras vestem colares e observam sentadas a rua e os corredores.
   Certa feita a noite chegou e vestida apenas com um pijama - e um colar de pérolas - aquela dama adormeceu em frente a janela, sentada em sua cadeira. O tempo passou e a manhã retornou. Por sorte o colar continuou em seu pescoço. Mas a dama jamais viu novamente aquela rua.

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Conto escrito na Oficina de Alcy Cheiuche - na Feira do Livro de 2012, em POA/RS - no "logorrali", com as palavras: "pérolas", "motocicleta", "sociedade", "vida" e "sorte".
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5 de dez de 2012

Incontinuidade temporal

Juro que o tempo parou enquanto dormi - entre uma acordada e outra. Nada fiz; não fui para as ruas ou sequer saí da cama. Mas haveriam tantas e tantas possibilidades. Quando enfim me levantei, o tempo voltou a sua normal continuidade.
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