Em meio a confusão do entorno do Mercado Público, Renato tentava atravessar a rua, desviando da multidão que saía do trem e dos descarregamentos de produtos do Mercado.
O dia amanheceu comum - assim, sem definição. Renato parou em uma cafeteria e pegou um café para viagem. Seguia seu rumo entre goles de cafeína.
Lembrou-se da família Joad - de As Vinhas da Ira - e seu apreço por um simples cafezinho durante sua estrada. Lembrou-se do livreiro Antônio.
Subindo pela Rua da Ladeira, resolveu dar um pulo rápido no Sebo, como quem não quer nada.
Fingiu observar os livros da vitrine e viu o livreiro entre as estantes.
Subiu o degrau e o piso rangeu sob seus pé ao primeiro passo. Com isso Antônio virou a cabeça e ficou olhando Renato. Não disse nada por alguns segundos; disse um "Bom dia" por fim.
Renato olhava os livros nas estantes e pilhas, sem buscar nada em específico. Resolveu testar o velho: abriu sua mochila, revirou entre os papéis e encontrou um pequeno livro que estava lendo. Buscou o livreiro e entregou-lhe o livro, perguntando quanto ele pagaria na compra.
Antônio segurou o livro, girou-o nas mãos, passou os dedos pela lombada, sentiu o peso e folheou rapidamente o mesmo. Por fim disse sem introduções:
- "Seis reais".
- Mas este livro novo custa quatro vezes mais. - disse Renato.
Antônio coçou o queixo e respirou forte.
- É um best-seller atual. Um autor premiado. - argumentou Renato.
- Oito reais, então. Não pago mais que isso. - disse Antônio, dando as costas.
- Ok. Vou pensar no caso. - respondeu Renato, guardando novamente o livro na mochila.
Fingiu olhar mais alguns livros em uma prateleira.
- O senhor tens algum livro de romance-policial, tipo o Dan Brow.
Antônio fez cara de que não entendeu ou não reconheceu o nome do autor.
- Garoto... se queres um livro policial leia Agatha Christie. Ela sim é uma boa autora.
Renato já havia lido, mas acabou levando para casa um exemplar de "O caso dos dez negrinhos". Quando saía pela porta, outro jovem perguntava ao livreiro por algum outro livro que estava na lista dos mais vendidos; Antônio não o possuía.
Parecia que aquele Sebo havia parado no tempo, lá pelos anos 1970.
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17 de mai. de 2018
14 de fev. de 2014
O livreiro
por
Capeleto
Os passos rangiam o assoalho. Madeira gasta. Velha. Marcada pelo tempo. Sobre os livros pairava uma camada de poeira - nem tão fina para os que lá estavam a anos aguardando. Circulavam entre as estantes poucos consumidores potenciais. Livros eram retirados do local, abertos, folheados, devolvidos. E o ciclo seguia.
Pela rua desfilavam guarda-chuvas; e estes por vezes permaneciam abertos mesmo sob as marquises - atrapalhando os transeuntes que por azar ou desmemória não os portaram ao sair de seus lares. Chovia calmo - dessas chuvas que surgem sem aviso e somem assim mesmo. Chuva destas que fazem surgir sono. Que fazem sonhar durante o dia. Que pegam no desaviso aqueles que sentados ficam esperando. Que...
- Oi. - disse alguém. - Hei! - repetiu, cutucando o livreiro. - Quanto é este livro?
Acordado de um cochilo à cutucadas, Antônio levantava a cabeça com cara amarrada.
- É... 7 mil cruzeiros - respondeu de reflexo.
O sol recém surgia; as luzes da rua ainda permaneciam acesas. Operários desciam dos primeiros ônibus do dia. O som de portões de metal subindo destaca-se no ar. Antônio buscava a chave do portão entre as demais do molho. Subia o rangente portão. Descia-o parcialmente após adentrar. Ligava as luzes, colocava as chaves sobre o balcão e saía novamente do local. Atravessava a rua e entrava no Bar; pedia um café preto, em copo de vidro pequeno. Assim todos os dias.
Pessoas entravam e saíam do sebo do início ao fim do dia. Entravam algumas com livros e saíam sem; entravam algumas sem e saíam com. Entravam e saíam várias sem. Assim todos os dias. Em dias de chuva o chão molhava. Pingavam nos livros. O piso escorregava. Povo ficava mau humorado; mau humorado também ficava o livreiro. Antônio cansava. Sabia os preços de cabeça, e quase nem precisava olhar a capa - pela pessoa previa o livro. Já na entrada fitava a pessoa e previa. Mas em dia de chuva as coisas de bagunçavam. Pedestre sem guarda-chuvas fugia do tempo olhando livros. Lá fora chovia. Chuva calma. Dessas que surgem sem aviso. Dessas que dão sono. Pessoas entravam e saíam. Entravam e saíam. Entravam...
- Oi... - disse alguém. E Antônio acordava se um cochilo, de mau humor.
Renato fugia da chuva. Atravessava a Rua da Praia correndo, buscando a próxima marquise. Esquecera o guarda-chuva em casa; ou fora pego de surpresa - essas chuvas as vezes surgem sem aviso. Subia a Borges, desviando dos guarda-chuvas que permaneciam abertos mesmo sob coberturas. Molhava-se a cada esquina. Faltava paciência para aguardar parado o tempo acalmar. Correu para debaixo de outra marquise. Chacoalhou as roupas e os cabelos molhados. Ajeitou a gola do casaco e olhou a vitrine de um sebo. Espiou o relógio; ainda era cedo. Entrou. Livros empoeirados, piso molhado, tábuas rangentes. Tradicional. Dentre as capas títulos clássicos. Twain, Dickens, Kerouak. Livros desconhecidos ao lado. Um o chamava atenção. Abriu a última página buscando um preço; valores de diferentes épocas monetárias apareciam. Cruzeiros, cruzados, reais. Carregou o livro até o caixa - em uma comum tentativa de filar um desconto negociado. O livreiro dormia sem esconder.
- Oi. - tentou. Hei... - tentou novamente.
Então cutucou o velho para acordá-lo de vez. Antônio, o livreiro, acordava; de mau humor.
- É... 7 mil cruzeiros - disse.
Renato preferia ouvir o valor em reais - já que era a moeda corrente. Preferiu não confrontar o velho.
Lá fora chovia. Dessas chuvas que vêm sem aviso. O povo se escondia por sob as marquises. Entravam nas lojas pra fugir do mau tempo.
- Ok. - disse Renato pondo o livro sobre o balcão. - Faz no crédito.
Antônio resmungou, pegou o livro, olhou a lombada, abriu a última página, espiou pra fora, devolveu o livro pro balcão e disse:
- Não tem crédito aqui
Renato segurava o cartão do banco.
- Tá, então faz no débito - disse, batendo o cartão sobre a capa do livro.
- Não tem também. - respondeu o livreiro. - Aqui só em dinheiro.
Sobre o balcão pairava uma máquina registradora. Dessas tradicionais, presentes em qualquer museu. Pintura danificada pelo tempo, teclas gastas, peças faltando. Seguia operando desde muito. Renato resmungava agora. Abriu a carteira contrariado. Buscou algumas notas, depois algumas moedas. Contou: cinco e sessenta. Preferiu não chorar um desconto. Devolveu o livro para uma pilha. Saiu devolta a rua. Lá fora ainda chovia.
O dia amanheceu limpo e seco. Um vento frio apenas relembrava a chuva do dia anterior. O povo corria pelas calçadas, usando inclusive as ruas para reduzir o congestionamento matinal. Na Esquina Democrática as filas se formavam nos carrinhos de pão de queijo. "Três", pediu Renato. Carregando o saquinho, seguiu em seu trajeto. Subiu pela Travessa para atalhar - e pegar menos trânsito. Ainda era cedo. O som de portas metálicas subindo fazia sinfonia pelas ruelas. O ônibus demoraria.
No "Sebo Dant'ônio" o livreiro tomava seu café, seguindo sua rotina. Entre os livros, uma ou duas mulheres. Renato entrava, rangendo a madeira do piso. Renato não buscava nenhum livro em específico; mas sempre carregava consigo uma lista de velhos clássicos. Steinbeck, Hemingway, Neruda. Olhava os demais "caçadores" do local. Que livros estariam buscando - pensava. Pelas estantes misturavam-se livros novos e velhos; brochuras, capas duras, pulp's.
- Quanto custa? - perguntou uma jovem ao livreiro, segurando um pesado livro.
Antônio apertava os olhos para tentar reconhecer o livro. A jovem colocou-o sobre o balcão. Antônio segurou o livro, girou nas mãos e aparentemente sentiu o peso.
- Te faço por vinte reais. - respondeu por fim, em um tom de quem esperava uma contra proposta.
A garota fez cara de quem analisava a proposta. "Qual a história do livro?" - perguntou. O velho livreiro fechou a cara e respondeu rispidamente um "Não lembro.", baixando a cabeça para algo sob o balcão. A jovem agradeceu com um sorriso, mas largou o livro sobre uma pilha. Renato acompanhou a curta negociação de longe. Reconheceria de longe aquela edição de "As vinhas da ira". Seguiu olhando os livros, porém não se conteve e pegou o livro deixado pela garota. Abriu-o e estava em boas condições - mal amareladas pelo tempo. Buscava o livro a tempos; e o havia lido à ainda mais - porém não o tinha em sua estante. Carregou o livro até o livreiro, calculando sua contra proposta. Fingiu primeiro não ter ouvido a conversa anterior.
- Oi... por quanto o senhor me faria este As Vinhas da Ira?
E foi o primeiro sorriso que ele vira o velho dar.
- Esse é um bom livro! - disse afávelmente - Um clássico definitivo. Um de meus preferidos. Mas ao mesmo tempo um livro depressivo; mostra um período negro da história americana... e o que há de pior, degradante e sombrio no ser humano. Mas é um de meus livros preferidos mesmo assim. Renato surpreendeu-se com o livreiro. Presenciara uma mudança repentina no velho homem.
- Realmente. - limitou-se a responder. - E por quanto me faria? - disse, já engatilhando a contra-proposta.
- O preço é dezoito, mas te faço por quinze. Tá parado a tempos aí.
- Ok. Eu levo. - disse Renato, sem ter precisado negociar.
Saiu do sebo carregando o clássico. E estranhando os fatos ocorridos.
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25 de set. de 2013
Café & Morte
por
Capeleto
O movimento estava tranquilo naquele dia. O cheiro de café comumente inundava o local. Lavava algumas xícaras e pensava alguma futilidade cotidiana.
Com um leve rangido a porta se abriu, entraram alguns clientes; sentaram em mesas. Fez sinal que já lhes atenderiam. Fechou a torneira, secou as mãos e pegou alguns cardápios para distribuir.
Quando se aproximava de uma das mesas teve um impacto ao de relance reconhecer em uma mesa seu antigo orientador.
Aquele homem era um dos tradicionais professores que têm por prazer moer o ego e os sentimentos de seus alunos. Era a personificação de todo o ódio e amargura que sentira na vida.
Entregou-lhe o cardápio tentando não se mostrar muito, em uma vã tentativa de que não fosse reconhecido. Porém...
- Ei... Eu conheço você! Sim, é você mesmo. Como vai?
Naquele momento ele era atendente de uma cafeteria. O que deveria entender com "como vai"?
---
Olhava para o alto; era um dos maiores edificios da cidade. Se nada mais desse certo seria de lá que ele se jogaria.
Arrumara o emprego pra fugir de tudo que fizera em sua vida. Queria tentar recomeçar. Nova vida. Fingir ser outra pessoa. Na realidade nada dera certo e não havia mais o que fazer. E se agora tudo não se resolvesse...
---
Quantas cafeterias possuiam um Doutor como atendente? Quantas pessoas com diploma de doutorado acabavam assim?
A fumaça da máquina subia enquanto mais um espresso era tirado. O barulho do leite sendo espumado era a música local.
Um machiatto, dois espressos e quatro pães de queijo. Dois capuccinos, um latte e duas tortas.
A simplicidade da matemática já não torrava seus neurônios.
---
Olhava para cima, do outro lado da rua. Estava certo: se jogaria no alto do prédio. A hora era propicia, pouco movimento na rua e muito no prédio comercial. A subida seria fácil. A decida não sabia.
Com a certeza de sua decisão pôs o pé direito em direção a rua. Sem a preocupação do dilema de vida ou morte, simplesmente atravessou. Uma motocicleta cortava um carro e fazia uma ultrapassagem indevida.
Não seria hoje.
---
No café tudo seguia igual.
Um submarino, dois ristrettos, 2 fatias de torta.
No hospital soro e uma parede verde-água ou seja lá qual for a denominação deste tom hospitalar.
Os bipes de um aparelho ressoavam.
---
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Com um leve rangido a porta se abriu, entraram alguns clientes; sentaram em mesas. Fez sinal que já lhes atenderiam. Fechou a torneira, secou as mãos e pegou alguns cardápios para distribuir.
Quando se aproximava de uma das mesas teve um impacto ao de relance reconhecer em uma mesa seu antigo orientador.
Aquele homem era um dos tradicionais professores que têm por prazer moer o ego e os sentimentos de seus alunos. Era a personificação de todo o ódio e amargura que sentira na vida.
Entregou-lhe o cardápio tentando não se mostrar muito, em uma vã tentativa de que não fosse reconhecido. Porém...
- Ei... Eu conheço você! Sim, é você mesmo. Como vai?
Naquele momento ele era atendente de uma cafeteria. O que deveria entender com "como vai"?
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Olhava para o alto; era um dos maiores edificios da cidade. Se nada mais desse certo seria de lá que ele se jogaria.
Arrumara o emprego pra fugir de tudo que fizera em sua vida. Queria tentar recomeçar. Nova vida. Fingir ser outra pessoa. Na realidade nada dera certo e não havia mais o que fazer. E se agora tudo não se resolvesse...
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Quantas cafeterias possuiam um Doutor como atendente? Quantas pessoas com diploma de doutorado acabavam assim?
A fumaça da máquina subia enquanto mais um espresso era tirado. O barulho do leite sendo espumado era a música local.
Um machiatto, dois espressos e quatro pães de queijo. Dois capuccinos, um latte e duas tortas.
A simplicidade da matemática já não torrava seus neurônios.
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Olhava para cima, do outro lado da rua. Estava certo: se jogaria no alto do prédio. A hora era propicia, pouco movimento na rua e muito no prédio comercial. A subida seria fácil. A decida não sabia.
Com a certeza de sua decisão pôs o pé direito em direção a rua. Sem a preocupação do dilema de vida ou morte, simplesmente atravessou. Uma motocicleta cortava um carro e fazia uma ultrapassagem indevida.
Não seria hoje.
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No café tudo seguia igual.
Um submarino, dois ristrettos, 2 fatias de torta.
No hospital soro e uma parede verde-água ou seja lá qual for a denominação deste tom hospitalar.
Os bipes de um aparelho ressoavam.
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Crônicas de Um / 1 Qualquer: crônicas,contos,textos
26 de mai. de 2013
Anoiteceu em Porto Alegre [3/3]
por
Capeleto
O sol nasce pra todos todo dia de manhã. Dizem que o mal nasce do medo da escuridão. Na real eu tenho medo é do medo que as pessoas têm.
Em algum lugar um alarme de carro não para de tocar. Um gosto amargo na boca. Trago comigo os estragos da noite; não nego.
Noites que passaram, noites que virão. Noites que passamos lado a lado em solidão. Noites que viramos esperando o sol nascer; esperando amanhecer. A certeza é que último dia do ano é sempre igual ao primeiro.
Os dias parecem séculos e se parecem uns com os outros. E a gente anda em círculos, seguindo ideais ridículos de querer, lutar e poder. Mas não tenho medo de perder a guerra, pois no fim da guerra todos perdem.
Em pouco tempo recomeça tudo lá fora, nas esquinas e nas escolas. E daqui a pouco vai ter alguém vendendo as machetes pelas ruas. Nada diferente. Chegamos finalmente ao "amanhã".
Amanheceu em Porto Alegre.
25 de mai. de 2013
Anoiteceu em Porto Alegre [2/3]
por
Capeleto
Desisto. Abandono a tortura mental do quarto; da insônia que me persegue. Coloco qualquer roupa jogada pelo chão, giro a chave e bato a porta. Desço as escadas, degrau por degrau até alcançar a rua. O casal de jovens já não está mais ali, os táxis já não passam mais por aqui e um pedinte dorme debaixo de um papelão. Não adianta mesmo ser livre, se tanta gente vive sem ter como comer.
Sigo sem rumos, sem barreiras ou fronteiras; na liberdade que só as madrugadas podem conceder. Não é a primeira vez que faço este trajeto, não é a primeira vez que sigo pelas ruas tarde da noite.
Suave é a noite, e é a noite que eu saio - pra conhecer a cidade e me perder por aí. Suave é cidade pra quem tem necessidade de se esconder. Esta cidade muito grande e ao mesmo tempo tão pequena; uma realidade por vezes tão distante do resto do país. Estamos longe demais das capitais.
As ruas seguem sob meus pés; atravesso uma grande avenida sem sequer necessitar olhar para os lados. Ao longe alguns carros, o barulho dos freios de um ônibus, e outros seguindo seus próprios rumos. Há mais de mil destinos em cada esquina.
Sempre me perco pelas mesmas ruas; não trago mapas, não leio as placas. Ando sem saber até quando. Não quero ter o que não tenho; só quero viver. Perder o rumo é bom - se perdido a gente encontra um sentido escondido em algum lugar.
Subo uma longa escadaria, observo o mundo lá embaixo. Ao longe os morros iluminados. Em alguns prédios janelas ainda acesas. Desço pelo outro lado das escadas. Nas calçadas moradores das ruas - moradores da noite.
Pelas ruas a indiferença, a desigualdade, a fragilidade humana. E todos fingem ser cegos; assistem as cenas e fingem pena. Isso já faz parte da rotina. Não é que eu faça questão de ser feliz, só queria que parassem de morrer de fome a um palmo do meu nariz.
Sigo pelas ruas sem planos, sem rumos. Pelo chão resquícios de propagandas de um prazer pago. Nas paredes as marcas dos modernos homens das cavernas: pictografia, arte rupestre ou somente pichações? Placas, adesivos, outdoors.
Muros e grades separam um mundo real de outro imaginário. Um país tão irreal e violento. O medo leva o povo a tudo - sobretudo à fantasia. E assim erguem-se muros para dar uma falsa garantia de uma morte cheia de uma vida tão vazia.
Ando só. Mesmo que pareçam bobagens as rotas que eu traço, tento traçar meus rumos (a esmo). Sigo sem saber aonde vou. Afinal de contas: nem sempre faço o que é melhor pra mim, mas nunca faço o que eu não tô afim de fazer.
24 de mai. de 2013
Anoiteceu em Porto Alegre [1/3]
por
Capeleto
Anoiteceu em Porto Alegre.
O sol mergulha no Guaíba. A escuridão vai tomando conta da cidade. Pelas ruas e avenidas a hora do rush; pessoas correndo, como que fugindo da Hora do Brasil. De algum lugar em meio a multidão ouve-se uma canção.
Da janela de um quarto de hotel assisto o corre-corre do povo. Amanhã será um novo dia. Um novo ano. Um novo recomeço.
Na rua ouço o rádio de um táxi; pastores exorcizando e ditadores sendo depostos. No quarto quase escuro, apenas a luz da televisão, fazendo com que as paredes mudem de cor a cada cena.
O vento sopra; canta uma canção. Sento em frente ao aparelho televisor. O quarto cada vez mais escuro. Passam-se horas em minutos. E lá fora o resto de dia vira noite.
Pairo novamente na janela. A cabeça nas nuvens e os pés no chão. Outro cigarro. Acho que envelheci dez anos ou mais neste último mês.
Novos pensamentos; velhos pensamentos. Vozes em minha cabeça. Um silêncio anormal para aquelas ruas. Táxis, moradores de rua.
Conto as horas que passam, na solidão das noites sem graça destes quartos de hotel.
20 de abr. de 2013
Sonhos neuróticos
por
Capeleto
A alguns dias tive um estranho sonho, que ainda estou tentando interpretar...
Sonhei que, sabe-se lá como, eu tinha virado um reconhecido ator de cinema. Durante uma entrevista com uma repórter ela me questionava: "Com que diretor você gostaria de atuar"; "Ah, certamente com Woody Allen", respondi. Nisto, o Allan Stewart Königsberg (também conhecido como, justamente, Woody Allen) estava exatamente atrás de mim e ouviu o que eu respondi para a repórter, cutucou meu ombro e falou: "Hei, eu estava justamente lhe procurando... você é perfeito para o papel principal do meu próximo filme".
O estranho é que o filme fugia levemente dos outros clássicos do diretor (onde os atores sempre o interpretam); para ser mais exato a ideia do Woody era que ele me interpretasse - eu na realidade nem apareceria no filme, ele faria o meu papel. É lógico que eu topei a ideia na hora.
Assim, Woody Allen passou vários dias me seguindo e fazendo tudo o que eu fazia - o famoso "laboratório". Usava as minhas roupas, mudou o cabelo, deixou a barba crescer, quase teve uma overdose de café e copiava minhas manias e modos.
Com o tempo Woody ficou mais íntimo e começou a questionar e criticar meu estilo de vida. Dizia que eu não tomava vitaminas o suficiente e gastava muito dinheiro em café; também estranhava que eu não era muito neurótico. "É necessário ser pelo menos um pouco neurótico nos dias de hoje", dizia. Acabei tirando a barba, cortando os cabelos, comprando novas roupas e sapatos adequados, além de trocar meu cereal matinal. Também tive que agendar consultas pelos próximos 6 anos e meio com um analista. Em poucos dias eu já reclamava de tudo, tomava remédios para controlar a ansiedade e a pressão; já havia até me convertido para o judaísmo. Praticamente uma versão traduzida do próprio diretor.
Com a finalização do "laboratório" de Woody Allen comigo, eu estava exatamente como ele. Acabou que o filme foi sobre um personagem neurótico em alguma cidade do mundo.
... mas acordei antes do lançamento do filme. Ele havia garantido que haveriam bons petiscos na estréia. Uma pena, uma pena.
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Crônicas de Um / 1 Qualquer: crônicas,contos,textos
12 de dez. de 2012
Pérolas na janela
por
Capeleto
O colar pairava no pescoço da dama. Não haviam motivos festivos para o uso de tais adornos, mas a beleza intrínseca deste despertava sentimentos inexpressivos. Sentada fronte à janela, a dama observava o passar da rua - vestida com um pijama... e um colar de pérolas.
Pela rua passavam carros, cavalos, motocicletas; passavam pessoas, cachorros e o tempo - e era apenas o tempo que notava aquela dama. Fizesse o tempo chuva ou sol, frio ou calor, em frente à janela haveria um colar de pérolas.
Pérolas sempre foram um sinal de luxo, levavam anos para desenvolver-se - custavam altos valores; e eram valorizados pela alta sociedade. Mas pela baixa luz do cômodo, apenas a dama enxergava a rua, e a rua não via o colar que pendia em seu pescoço.
Há quem diga que a vida é feita para ser vivida, há quem diga que se nasce para morrer. Uns passam o tempo correndo, uns passam observando. Outras vestem colares e observam sentadas a rua e os corredores.
Certa feita a noite chegou e vestida apenas com um pijama - e um colar de pérolas - aquela dama adormeceu em frente a janela, sentada em sua cadeira. O tempo passou e a manhã retornou. Por sorte o colar continuou em seu pescoço. Mas a dama jamais viu novamente aquela rua.
---
Conto escrito na Oficina de Alcy Cheiuche - na Feira do Livro de 2012, em POA/RS - no "logorrali", com as palavras: "pérolas", "motocicleta", "sociedade", "vida" e "sorte".
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Crônicas de Um / 1 Qualquer: crônicas,contos,textos
Pela rua passavam carros, cavalos, motocicletas; passavam pessoas, cachorros e o tempo - e era apenas o tempo que notava aquela dama. Fizesse o tempo chuva ou sol, frio ou calor, em frente à janela haveria um colar de pérolas.
Pérolas sempre foram um sinal de luxo, levavam anos para desenvolver-se - custavam altos valores; e eram valorizados pela alta sociedade. Mas pela baixa luz do cômodo, apenas a dama enxergava a rua, e a rua não via o colar que pendia em seu pescoço.
Há quem diga que a vida é feita para ser vivida, há quem diga que se nasce para morrer. Uns passam o tempo correndo, uns passam observando. Outras vestem colares e observam sentadas a rua e os corredores.
Certa feita a noite chegou e vestida apenas com um pijama - e um colar de pérolas - aquela dama adormeceu em frente a janela, sentada em sua cadeira. O tempo passou e a manhã retornou. Por sorte o colar continuou em seu pescoço. Mas a dama jamais viu novamente aquela rua.
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Conto escrito na Oficina de Alcy Cheiuche - na Feira do Livro de 2012, em POA/RS - no "logorrali", com as palavras: "pérolas", "motocicleta", "sociedade", "vida" e "sorte".
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14 de nov. de 2012
RE-LEMBRANÇAS
por
Capeleto
Edgar tinha uma vida normal. Até que um dia sofreu um acidente motociclístico e perdeu a memória. No início foram duros dias, sem saber ao certo quem era, o que gostava ou odiava. Aos poucos, com a ajuda de amigos - e da internet de modo geral -, foi re-descobrindo seus gostos e desgostos. Re-lembrou quais eram suas comidas preferidas e pode re-experimentá-las pela "primeira vez", mais uma vez; re-descobriu seus locais preferidos e pode re-visitá-los com o olhar de um turista - pela segunda primeira vez; re-soube quais eram seus filmes favoritos e viu estes por várias vezes, mais vezes.
Aos poucos Edgar foi voltando a ter uma vida normal; normal até demais... quase sem graça, depois de tantas (re)descobertas. Cansado da mesmice de comuns descobrimentos, Edgar resolveu tentar a sorte e jogar sua motocicleta outra vez sobre um carro qualquer - para perder a memória de novo.
Infelizmente Edgar não re-aprendeu a andar de moto; apenas subiu sobre ela, caiu e quebrou uma perna...
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4 de jul. de 2012
O mendigo
por
Capeleto
- Olá... - disse Jones após alguns minutos sentado ao lado do homem; sendo respondido apenas com um aceno de cabeça e algum resmungo gutural.
Jones, homem, adulto, cerca de 40 anos; desiludido com o trabalho e a vida. Talvez crise de meia-idade, talvez simples irritação com as adversidades urbanas. Demitido, divorciado, derrotado. Lhe recomendaram psicanálise, benzedeira, igrejas - mas Jones preferiu apenas tentar olhar o mundo de cima, procurando alguém que estivesse mais fundo no poço da vida. E assim sentou-se ao lado de um qualquer coitado que não teve oportunidades na vida - um morador das ruas.
- Vai chover... - continuou Jones.
- Vai. - apenas respondeu o homem.
Jones buscava palavras para conversar com o homem - e "egoisticamente" erguer suas esperanças.
- Estar nas ruas debaixo de uma chuva destas não deve ser nada bom, não é!?
- Aham.
- ...
- (silêncio).
Jones olhava para os lados, pensava no que poderia dizer.
- Deve ser bem frio de noite nestes bancos, não?!
- Certo - respondeu o outro homem sem interesse na conversa.
- E arranjar comida deve ser complicado também, né?!
- É...
Jones não sabia como incentivar a conversação. O outro homem apresentava uma barba por fazer e cabelos desgrenhados; trajava roupas rasgadas e imundas.
- Suas calças estão bem furadas... - disse Jones tentando provocar.
- Estão sim. - limitou-se a responder o homem.
- E você não faz a barba a dias também.
- Sim.
- Nem corta os cabelos...
- Também não.
Jones já não sabia mais como jogar na cara daquele homem que ele estava no fundo do poço social. Resolveu apelar e ser extremamente direto.
- Você deve ser totalmente infeliz morando nas ruas... não sei como consegue ficar sentado em um banco destes tranquilamente numa tarde destas; devia estar por ai mendigando!
O homem virou a cabeça lentamente, ergueu uma sobrancelha e abriu um riso no canto da boca. Ficou sorrindo e olhando Jones.
- Mas credo... como ainda pode rir disso... !? - disse Jones.
O homem prosseguia rindo, cada vez mais abertamente. Depois de um tempo levantou-se, olhou as horas em um relógio de luxo escondido debaixo da manga do sujo casaco e disse:
- Agradeço o elogio, mas lamento... tenho que voltar ao set de filmagem.
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13 de jun. de 2012
Cinefilia
por
Capeleto
Amelie era uma cinéfila. Seu verdadeiro nome era Amanda, mas Amelie soava mais Hollywoodiano - pelo menos era o que "Amelie" pensava.
Amelie sonhava que um dia uma coruja chegaria em sua casa, lhe convocando para Hogwarts; que um dia encontraria um bilhete dourado em uma barra de chocolates, lhe concedendo uma visita à Wonka; que um dia encontraria um anel que lhe daria poderes; que seguiria por um caminho de tijolos amarelos pela Terra de Oz; e por ai segue. Despedia-se de seus amigos dizendo: "Que a força esteja com você"; sempre que tinha um problema, sussurrava: "Houston, we have a problem". Quando surgia qualquer perigo gritava: "Run, Forest, Run". E quando algo dava errado batia as mãos dizendo: "Corta!".
Amelie decorou praticamente todas as falas dos maiores clássicos do cinema mundial; e as usava em seu dia a dia. No início apenas uma brincadeira, mas com o tempo tornou-se um vício... incontrolável. Quando Amelie ganhou uma aliança de seu namorado, ficou em total silêncio olhando-a na palma de sua mão... e depois pronunciou, com muito sentimento: "My Precious..." - e tossiu de estranho modo algumas vezes (ato que repetia frequentemente). Quando Amelie fez uma proposta de trabalho à um funcionário, disse antes de qualquer coisa: "Eu vou lhe fazer uma proposta que você não poderá recusar". Quando Amelie iniciou um Clube do Livro em sua escola, começou a primeira reunião dizendo: "A primeira regra do Clube do Livro é 'nunca fale sobre o Clube do Livro', a segunda regra do Clube do Livro é 'nunca fale sobre o Clube do Livro'". Quando Amelie foi promovida no seu trabalho, respondeu para seu chefe: "Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades" - mas seu chefe sequer gostava de filmes, e ficou na dúvida se havia feito a coisa certa. E assim iniciou-se a decadência moral de Amelie.
Amelie progressivamente começou a comunicar-se apenas em uma pontuação, termos e fonética típica dos diálogos de filmes. Também criou uma quase certeza de que toda sua vida era filmada, como em "O Show de Truman"; e por isto evitava fazer "certas coisas". Amelie tinha uma certeza inabsoluta de que em outra vida lutou na guerra, assim como foi prisioneira de campos de concentração e piloto de avião. Com o tempo Amelie não suportou mais ir à praia, com terror de "Tubarão"; sequer andar de qualquer transporte hidroviário, com fobia de se repetir um "Titanic"; nunca mais entrara em uma avião, com um trauma não vivido de "Naufrago"; e jamais tomava sequer uma rápida ducha em um banheiro com cortinas, com receio de "Psicose".
Amelie certo dia notou que toda sua vida realmente era "cinematográfica"; mas contrariando o esperado, em vez de buscar ajuda médica, achou que faltava apenas um detalhe para sua história ficar completa: uma morte cinematográfica. E assim Amelie planejou cada detalhe de como iria morrer: data, local, situação, últimas palavras, vestido, iluminação, etc. Resumidamente: iria ser empurrada do alto de um prédio, durante uma discussão com um (fictício) amante, caindo em frente à uma cafeteria cheia de frequentadores. Contratou maquiadora, figurantes, entre outros. Com tudo pronto, Amelie preparou-se para aquele que seria o ponto máximo no filme de sua vida: o fim desta. Fez sua última refeição... e ao atravessar a rua, para subir ao prédio, morreu atropelada por um ônibus. Apenas uma pequena nota foi publicada em um jornal de baixa circulação.
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Crônicas de Um / 1 Qualquer: crônicas,contos,textos
18 de mai. de 2012
Uma dissertação sobre a falta de inspiração [2/2]
por
Capeleto
[continuação...]
Odranoel buscou em sua memória algum assunto que havia deixado cozinhando em sua cabeça. Decidiu pelo item 345P2S - código este, qual ele garantia que fazia parte de um estabelecido ordenamento de suas idéias mentais. Porém, o item 345P2S consistia da 'lua cheia'. Visto que ainda era dia, dificultaria uma escrita com mais emoção, pois não conseguiria olhar para sua branca e redonda musa inspiradora; outro fato que se somava, era que nesta data a lua era minguante, e Odranoel não suportaria iniciar um texto que teria de aguardar até a lua certa para concluir. Assim, Odranoel decidiu, após cerca de 13 segundos, partir para outro assunto.
16 de mai. de 2012
Uma dissertação sobre a falta de inspiração [1/2]
por
Capeleto
Odranoel - escritor, leitor e crítico-gastronômico-amador-de-fins-de-semana - escrevia diariamente em sua máquina Olivetti Letera 82, de cor verde. Seu processo criativo consistia em um projetado e elaborado 'improviso'.
Odranoel acordava todas as manhãs às 07:37 em ponto, descia para as ruas onde comprava um café-para-viagem em uma cafeteria na esquina, e 3 pães-de-queijo com um vendedor ambulante à duas quadras do primeiro local. Odranoel nunca viajava com seu café; e a cafeteria até vendia pães-de-queijo, mas eram de um tamanho muito maior do que os vendidos pelo ambulante - e achava uma pouca vergonha apenas 1 pão-de-queijo custar o mesmo valor de 3 em outro local... independente de seus tamanhos. Após a compra do café e dos pães-de-queijo, Odranoel seguia até um terceiro local, uma praça, onde sentava-se sempre no mesmo banco, ao lado de um coqueiro, onde tomava (e comia!) seu café-da-manhã - em dias de chuva, Odranoel molhava-se.
Odranoel acordava todas as manhãs às 07:37 em ponto, descia para as ruas onde comprava um café-para-viagem em uma cafeteria na esquina, e 3 pães-de-queijo com um vendedor ambulante à duas quadras do primeiro local. Odranoel nunca viajava com seu café; e a cafeteria até vendia pães-de-queijo, mas eram de um tamanho muito maior do que os vendidos pelo ambulante - e achava uma pouca vergonha apenas 1 pão-de-queijo custar o mesmo valor de 3 em outro local... independente de seus tamanhos. Após a compra do café e dos pães-de-queijo, Odranoel seguia até um terceiro local, uma praça, onde sentava-se sempre no mesmo banco, ao lado de um coqueiro, onde tomava (e comia!) seu café-da-manhã - em dias de chuva, Odranoel molhava-se.
9 de mai. de 2012
Laranjas
por
Capeleto
Depois de comerem em silêncio, sem pressa, com o sol já quase sumindo no horizonte, os dois homens saíram para a varanda da casa.
- "Pega uma laranja pro Vô, Neto! – disse o velho tropeiro, já sentando na cadeira de balanço e acendendo o lampião."
Quando Neto voltou da árvore que ficava ao lado da casa, com duas laranjas nas mãos, o avô lhe falou com um ar de filósofo e um sorriso no rosto:
- "Sabes, Neto... A vida é que nem uma laranja no alto de uma árvore... – fez uma pequena pausa – de longe, quando tu vê a laranja, ela parece grande, bonita, lustrosa. Daí tu faz um esforço tremendo pra pegar ela, e quando estás com ela na mão, tu vê que ela está enferrujada e nem era tão bonita. E tinha uma mais bonita que tava ao alcance, sem esforço!"
Neto olhou para as laranjas, olhou para o avô e disse:
- Pow, vô. Tu podia ter me dito isto antes de eu subir no alto da árvore, né!?
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trecho adaptado, do livro:
'Chimia de Abóbora', de L.A. Kapletto (este que vos escreve!)
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Crônicas de Um / 1 Qualquer: crônicas,contos,textos
25 de abr. de 2012
O Jornal
por
Capeleto
O aroma convidativo de café e quitutes diversos é sentido por todos que passam pela frente do local. A cafeteria abrira a pouco tempo, trazendo novidades bem-vindas àquela região. No início, poucos aventureiros e curiosos, e claro, os viciados por café. Pelo lado de fora muitos passam, quase correndo, apenas espiando tudo pelas janelas.
Aos poucos vão surgindo, um à um, os cativos consumidores. Casais apaixonados em busca de um local romântico, leitores assíduos atrás de um ambiente tranquilo para ler, escritores sempre à procura de inspiração; e claro, os viciados por café atrás de ...café! Mas algo faltava àquele lugar; até que em uma manhã qualquer, a porta se abriu...
11 de fev. de 2012
Descobertas [2/2]
por
Capeleto
[...continuação]
O SINO SOOU 1X NO PUB.
Pediram a última rodada.
Após uma forçada risada, Fernando perguntou, tentando rir:
- OK, já que descobrimos que literalmente temos de lhe perguntar sobre tudo... você por acaso nunca ganhou algum Prêmio Nobel?
- Não... - respondeu Alberto.
- Ufa, seria muita surpres[...]
- ...ainda. - continuou Alberto.
Novamente: silêncio.
- Nã...nã...nã. Nada mais me surpreende hoje. - disse Saul. - Explique-se.
- Ah... estão encaminhando minha indicação por uma pesquisa que participei a algum tempo, e tenho boas chances.
- Heim? Que pesquisa? Sobre o que?! - perguntou alguém, com olhos esbugalhados.
- Bem, à princípio descobrimos uma possível cura para o câncer.
Até uma mesa ao lado silenciou desta vez.
- Cura... câncer? Como... assim?
- Sabem como é... testes laboratoriais com cobaias... repetições, diferentes tratamentos, placebos, etc.
- E nunca... - Ricardo começou a pergutar.
- ... perguntaram. - completou Alberto.
- Mas...
- Ninguém nunca comentou que tinha câncer aqui... - tentou se explicar Alberto.
Se entreolharam tentando descobrir o que poderiam agora sequer falar. Olhavam para os lados, imaginando se nas outras mesas também estariam havendo tantas descobertas numa só noite. Novo silêncio. Pareciam agora totais desconhecidos; imaginavam se, entre os outros amigos presentes na mesa, também não haveriam outros pequenos-grandes segredos desconhecidos.
8 de fev. de 2012
Descobertas [1/2]
por
Capeleto
Era noite; aquele calor com frio, característico da primavera. O pub estava cheio, como sempre. Claro que para este pub estar cheio, bastavam poucas pessoas. Pelas mesas grandes copos de cervejas artesanais; e o burburinho de várias conversas ao mesmo tempo. Em uma destas mesas, o grupo de sempre; amigos de longa data. Entre eles, os assuntos de sempre.
Comentavam o carro novo de um, a formatura de outro, o ingresso no mestrado de um terceiro, o possível casamento de um quarto, e os velhos tempos de colégio de todos. Analisavam o desenvolvimento econômico, cultural e intelectual daquele grupo que em anos passados só jogavam bola e andavam de skate. "Quem diria que estaríamos hoje entre engenheiros, economistas, empresários e etc!", comentou um deles, "Uns já tiveram filhos, outros já plantaram árvores, agora só falta alguém escrever um livro...", completou, brincando com o ditado popular de 'uma vida completa' e 'plenamente realizada'.
Todos riram alegremente; menos Alberto.
- Bem, na realidade... eu já escrevi um livro. - disse.
Silêncio na mesa. Todos se entreolham, com estranheza.
- Como assim 'já escreveu um livro'? - questionou Ricardo.
- Hã... escrevi palavras, impresso, capa... papel Offset 75g...
Novo silêncio; quase constrangedor. Um clima de desconfiança no ar.
26 de nov. de 2011
Chimia de Abóbora [1]
por
Capeleto
O sol iniciava seu trajeto para o interior da Terra. Em breve tempo a escuridão dominaria aqueles pagos.
- Neto! Monta teu tordilho e vamos se bandear pro pasto campear o gado. Se a noite cai, quem manda nestes pagos são os bichos.
E se foram dois peões, com cães ladeando os cavalos. Era uma estrada de chão batido, marcada pelas patas dos cavalos. Aberta e delineada pela andança do gado.
Ao longe, pastando e ruminando viam-se as reses. Com o aproximar dos cavalos o gado ia se levantado - conheciam o caminho da volta.
Com o gado seguindo a frente e os cães acompanhando, avô e neto seguiam os animais.
- Esses bichos seguem na nossa frente como um tropel de soldados... – disse o velho Sebastião ao neto – e tu sabia que uns anos atrás, por esta mesma estrada, passaram marchando os Farroupilhas? Se iam para a peleia.
- Eu sei Vô... – respondeu o neto – tu já me contou.
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