25 de jul de 2012

Os reclamadores

E em um bom projeto é necessário dois lados: os que pensam e os que avaliam.
Sem avaliadores, idéias absurdas surgiriam nas mentes dos pensadores. O avaliador é um filtro. Penso que na vida também deve ser assim. Os que pensam e os que avaliam. Ou: 'Os que fazem e os que reclamam'.

Certamente à primeira vista não faz sentido. Mas avaliemos: se todos dissessem a máxima "Se não podes fazer melhor, não critique", o mundo estaria uma grande bagunça (para não dizer outras coisas). É de suma importância os avaliadores (ou: reclamadores). Se não posso fazer melhor, critico... e aguardo que alguém o faça. Obviamente, o mundo não funcionaria apenas com reclamadores.

Não tenho poderes políticos ou sequer financeiros para grandes mudanças urbanas. Devo eu ficar quieto e apenas assistir a tudo? Não... reclamo na cara de quem o fez. Devo me candidatar à política? Não... me sobra honestidade.

Se grandes filósofos tivessem se calado frente aos problemas da sociedade de suas épocas talvez não vivêssemos neste mundo que estamos. Talvez a sociedade estivesse até melhor, claro... mas não vamos complicar a linha de pensamento.

ok. ok. ok.
Parei, parei. Assumo: puro ressentimento, porque não aprendi a jogar futebol! vivo reclamando.

--- 
Crônicas de Um / 1 Qualquer: crônicas,contos,textos

18 de jul de 2012

O violão

Encostado na parede um violão desafinado.
Cordas oxidadas; poeira impregnada.
Mas segue pelos cantos.

Promessas semanais de trocar as cordas.
Afinar, limpar,tocar e cantar.
Mas segue ali no canto.

Ainda vou retomá-lo, e relembrar velhos tempos.
Fazer música de novo soar pela madeira.
Antes que desafinem meus dedos.
--- 
Crônicas de Um / 1 Qualquer: crônicas,contos,textos

11 de jul de 2012

A sociedade

Sub-julguei toda a sociedade, mas sem subjugar;
Botei o dedo em riste e pensei poucas e boas;
Falei muitas e más.

Mandaram-me não julgar a sociedade;
mas a sociedade mostrou a bunda,
e rebolou na minha cara!

--- 
Crônicas de Um / 1 Qualquer: crônicas,contos,textos

4 de jul de 2012

O mendigo

   - Olá... - disse Jones após alguns minutos sentado ao lado do homem; sendo respondido apenas com um aceno de cabeça e algum resmungo gutural.
   Jones, homem, adulto, cerca de 40 anos; desiludido com o trabalho e a vida. Talvez crise de meia-idade, talvez simples irritação com as adversidades urbanas. Demitido, divorciado, derrotado. Lhe recomendaram psicanálise, benzedeira, igrejas - mas Jones preferiu apenas tentar olhar o mundo de cima, procurando alguém que estivesse mais fundo no poço da vida. E assim sentou-se ao lado de um qualquer coitado que não teve oportunidades na vida - um morador das ruas.
   - Vai chover... - continuou Jones.
   - Vai. - apenas respondeu o homem.
   Jones buscava palavras para conversar com o homem - e "egoisticamente" erguer suas esperanças.
   - Estar nas ruas debaixo de uma chuva destas não deve ser nada bom, não é!?
   - Aham.
   - ...
   - (silêncio).
   Jones olhava para os lados, pensava no que poderia dizer.
   - Deve ser bem frio de noite nestes bancos, não?!
   - Certo - respondeu o outro homem sem interesse na conversa.
   - E arranjar comida deve ser complicado também, né?!
   - É...
   Jones não sabia como incentivar a conversação. O outro homem apresentava uma barba por fazer e cabelos desgrenhados; trajava roupas rasgadas e imundas. 
   - Suas calças estão bem furadas... - disse Jones tentando provocar.
   - Estão sim. - limitou-se a responder o homem.
   - E você não faz a barba a dias também.
   - Sim.
   - Nem corta os cabelos...
   - Também não.
   Jones já não sabia mais como jogar na cara daquele homem que ele estava no fundo do poço social. Resolveu apelar e ser extremamente direto.
   - Você deve ser totalmente infeliz morando nas ruas... não sei como consegue ficar sentado em um banco destes tranquilamente numa tarde destas; devia estar por ai mendigando!
   O homem virou a cabeça lentamente, ergueu uma sobrancelha e abriu um riso no canto da boca. Ficou sorrindo e olhando Jones.
   - Mas credo... como ainda pode rir disso... !? - disse Jones.
   O homem prosseguia rindo, cada vez mais abertamente. Depois de um tempo levantou-se, olhou as horas em um relógio de luxo escondido debaixo da manga do sujo casaco e disse:
   - Agradeço o elogio, mas lamento... tenho que voltar ao set de filmagem.
--- 
Crônicas de Um / 1 Qualquer: crônicas,contos,textos