26 de dez de 2012

Limbo dos guarda-chuvas

Certa manhã encontrei uma porta jamais vista em meu apartamento. Era o "limbo dos guarda-chuvas". Haviam canetas por todos os lados, prendedores, guarda-chuvas e tudo que era perdido sem razão. Depois voltei a dormir, maravilhado com aquela loucura. Mas é uma pena... nunca mais encontrei aquela porta! Sigo perdendo minhas canetas.
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19 de dez de 2012

Profissão: sonhador

Sempre questionam às crianças sobre o que elas desejam de seu futuro. Questionam os adolescentes também. Questionam até os jovens graduandos. Mas quase ninguém questiona os adultos. Ninguém questiona os idosos. Como se não houvessem mais sonhos e projetos. Como se tudo tivesse dado certo. Apenas colhendo as glorias. O adulto bem sucedido, pai de dois filhos, proprietário de um carro e um apartamento... no fim das contas pode só ter sonhado em ser bombeiro ou astronauta - acabou sendo um mero engenheiro. Os sonhos mudam com o tempo;  a criança que queria ser bombeiro vira o adolescente que queria ser engenheiro, que queria ser ator de teatro, que queria ser escritor. Acaba morrendo com o título de: "sonhador".
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12 de dez de 2012

Pérolas na janela

   O colar pairava no pescoço da dama. Não haviam motivos festivos para o uso de tais adornos, mas a beleza intrínseca deste despertava sentimentos inexpressivos. Sentada fronte à janela, a dama observava o passar da rua - vestida com um pijama... e um colar de pérolas.
   Pela rua passavam carros, cavalos, motocicletas; passavam pessoas, cachorros e o tempo - e era apenas o tempo que notava aquela dama. Fizesse o tempo chuva ou sol, frio ou calor, em frente à janela haveria um colar de pérolas.
   Pérolas sempre foram um sinal de luxo, levavam anos para desenvolver-se - custavam altos valores; e eram valorizados pela alta sociedade. Mas pela baixa luz do cômodo, apenas a dama enxergava a rua, e a rua não via o colar que pendia em seu pescoço.
   Há quem diga que a vida é feita para ser vivida, há quem diga que se nasce para morrer. Uns passam o tempo correndo, uns passam observando. Outras vestem colares e observam sentadas a rua e os corredores.
   Certa feita a noite chegou e vestida apenas com um pijama - e um colar de pérolas - aquela dama adormeceu em frente a janela, sentada em sua cadeira. O tempo passou e a manhã retornou. Por sorte o colar continuou em seu pescoço. Mas a dama jamais viu novamente aquela rua.

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Conto escrito na Oficina de Alcy Cheiuche - na Feira do Livro de 2012, em POA/RS - no "logorrali", com as palavras: "pérolas", "motocicleta", "sociedade", "vida" e "sorte".
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5 de dez de 2012

Incontinuidade temporal

Juro que o tempo parou enquanto dormi - entre uma acordada e outra. Nada fiz; não fui para as ruas ou sequer saí da cama. Mas haveriam tantas e tantas possibilidades. Quando enfim me levantei, o tempo voltou a sua normal continuidade.
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28 de nov de 2012

Previsões no Velho Oeste

O telefone toca no meio da tarde; sábado, no meio do filme. Sem muita paciência Paulo atende, com o olho ainda no bandido do faroeste.
Uma musiquinha de qualidade discutível anuncia um telemarketing.
- Bom dia, com quem eu falo? - questiona uma voz de falso-aveludado do outro lado da linha.
- Boa tarde, pois já passou do meio dia. E por favor, resuma, pois o o mocinho e o bandido estão se aproximando do embate.
- Hã... (silêncio). É... bem... represento o Jornal Qualquer e gostaríamos de estar verificando se o senhor não gostaria de estar assinando nosso jornal?
Um silêncio de alguns segundos é apenas quebrado por sons de esporas e tiros.
- Não... não tenho interesse. Até ma...
- Mas senhor - segue a voz do outro lado da linha - posso estar lhe oferecendo uma ótima promoção e...
- Não...
- Mas senhor - insiste a voz - posso estar lhe dando um desconto promocional de...
- Não... não tenho interesse neste jornal no momento. Quem sabe daqui a algum tempo. Agradecido!
- Obrigado pelo seu tempo senhor, compreendo. Mas para o Jornal Qualquer retornar o contato, o senhor não poderia estar me passando uma previsão?
Relinchos, gritos indígenas, música de fundo e os suspiros da donzela.
- Olha... acho que amanhã chove!

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21 de nov de 2012

10 microcontos de 1 Qualquer [3]

   Alguns microcontos (e outras frases...) "selecionadas aleatoriamente" em anotações perdidas nas gavetas de um escritor qualquer.
   Confesso... as melhores continuam (sabe-se lá até quando) guardadas para um futuro livro inédito! =/

  1. Após diversas entrevistas falhas, cortou fora uma mão para garantir uma vaga para deficientes.
  2. Como pulgões que se multiplicam até matar seu tomateiro.
  3. E quando estar fora de moda virou moda, o mundo entrou em colapso.
  4. Ignorante foi ao acreditar nas próprias promessas.
  5. Um ciclo vicioso; como louça e pia.
  6. Batendo as teclas da velha máquina de escrever, relembrou seus pais aprendendo a usar um computador.
  7. A obra era como a assimetria proposital dos cabelos de um jovem.
  8. Acordou no meio da noite, torcendo para que já fosse dia.
  9. Na insônia da noite lembrou-se do excesso de sono daquela manhã.
  10. Incessantemente pingava a torneira, na pia da cozinha.
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14 de nov de 2012

RE-LEMBRANÇAS

     Edgar tinha uma vida normal. Até que um dia sofreu um acidente motociclístico e perdeu a memória. No início foram duros dias, sem saber ao certo quem era, o que gostava ou odiava. Aos poucos, com a ajuda de amigos - e da internet de modo geral -, foi re-descobrindo seus gostos e desgostos. Re-lembrou quais eram suas comidas preferidas e pode re-experimentá-las pela "primeira vez", mais uma vez; re-descobriu seus locais preferidos e pode re-visitá-los com o olhar de um turista - pela segunda primeira vez; re-soube quais eram seus filmes favoritos e viu estes por várias vezes, mais vezes.
     Aos poucos Edgar foi voltando a ter uma vida normal; normal até demais... quase sem graça, depois de tantas (re)descobertas. Cansado da mesmice de comuns descobrimentos, Edgar resolveu tentar a sorte e jogar sua motocicleta outra vez sobre um carro qualquer - para perder a memória de novo.
     Infelizmente Edgar não re-aprendeu a andar de moto; apenas subiu sobre ela, caiu e quebrou uma perna...

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7 de nov de 2012

10 microcontos de 1 Qualquer [2]

   Alguns microcontos (e outras frases...) "selecionadas aleatoriamente" em anotações perdidas nas gavetas de um escritor qualquer.
   Confesso... as melhores continuam guardadas para um futuro livro inédito! =/

  1. Negocio meu sono com duas xícaras de café.
  2. Ia mudar de vida; acabou apenas mudando de barba.
  3. D'outro lado tudo passa, para este passageiro.
  4. O futuro estava no passado.
  5. Teve dois dias para "não fazer nada". Não soube o que fazer. Nada fez.
  6. Aquele não foi o primeiro dia do resto de sua vida.
  7. Foi humor negro até acontecer.
  8. Não acreditava na sorte, mas não queria que ela o abandonasse.
  9. O ano passou rápido demais; até perder o emprego.
  10. Com certeza inabsoluta, garantiu.
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31 de out de 2012

Relógio de Sol


   Usei relógios de pulso por muitos anos de minha vida; esta fantástica invenção atribuída à Santos Dummond. Hoje sou refém de um celular; onde escrevi originalmente este texto, inclusive.
   Atualmente tentam reduzir todas nossas necessidades à um único aparelho. Como se fossemos carregar uma casa inteira nas costas. Tudo à mão... tudo pronto para rapidamente ser perdido ou roubado. Depois é só recomeçar tudo do zero!? Tudo de novo?!

   Cansei... estou aprendendo a ver as horas pelo sol.


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24 de out de 2012

10 microcontos de 1 Qualquer

   Alguns microcontos (e outras frases...) "selecionadas aleatoriamente" em anotações perdidas nas gavetas de um escritor qualquer.
   Confesso... as melhores estão guardadas para um futuro livro inédito! =/

  1. LEMBRETE: Tomar remédio pra falta de memória.
  2. Ansiosidade.
  3. E blá bla bla.
  4. Sua vida era um livro aberto - porém revisado e editado.
  5. Era 8 ou 80 ... jamais 44.
  6. Cansado da insônia, resolveu tomar um ônibus no meio da noite.
  7. Ano novo. Vida velha.
  8. Sobrou vontade; faltou dinheiro.
  9. E pensaram que seriam felizes para sempre.
  10. Em terra de surdos, quem pode falar não é ouvido.
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17 de out de 2012

Livros perdidos

   Perdi um livro propositalmente; não por falta de cuidado ou desatenção - sequer azar. Espero que quem o achar por aí tenha mais sorte que eu - ou posteriormente mais azar: e o perca novamente.
   Já andei diversas vezes com livros no bolso (desses literalmente "pockets") e nunca fui roubado. Já vi vários sebos com diversos livros expostos na rua, podendo ser pegos por qualquer um... e jamais presenciei um furto. É engraçado: ninguém quer roubar cultura ou conhecimento.
   Talvez aquele livro esteja agora em algum lixão ou boiando lá pelo Guaiba. Ou talvez preso em alguma estante.
   Que alguém roube cultura; ou no mínimo a pegue emprestada.
   Que alguém tenha mais azar que eu...

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10 de out de 2012

A felicidade, a certeza e o silêncio

   Há três coisas que foram inventadas pelos seres humanos: a felicidade, a certeza e o silêncio. A "felicidade" em totalidade é por si só a falta de memória ou desatenção com tudo que ocorre de horrendo no  entorno. A "certeza" é o excesso de confiança no exato, no correto; sempre há duas verdades, dois lados. E o "silêncio", nada mais é do que apenas a falta de sons; como o branco é a presença de todas cores e o preto a ausência das mesmas; só ouve o silêncio quem não quer escutar. De qualquer forma... são só palavras...

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3 de out de 2012

Memórias desbotadas

   Lamentável pensar que as lembranças estão se limitando apenas a memórias. Algo que ocorre de tempos em tempos, mas apavorante pensar que está ocorrendo tão cedo.
   Poucos os antigos prédios que permanecem em pé. Os carros já não são os mesmos; algumas pessoas também já se foram. Construções caem para dar lugar a novas construções. Apenas as ruas seguem as mesmas.
   Nas fotografias seguem vivos os prédios, em preto e branco - de locais que já foram coloridos. Memórias, já desbotadas. As lembranças um dia se vão; as fotos amarelam; os filmes envelhecem; os papéis se perdem. A história se apaga.
   As poucas estruturas que seguem em pé, são toda a viva lembrança de uma geração. O que resiste, é a memória de uma cidade. Uma lembrança a cada dia mais esquecida.

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5 de set de 2012

Diários de Mudanças



Mala aberta sobre a cama.
Roupas diversas empilhadas.
Caixas pelo chão.
Poeira pelo ar. 

Começo a organizar tudo para a mudança. Estarrecido fico com o volume de inutilidades guardadas durante a vida. Encaixoto o que realmente importa e sigo em frente. Abrir a mão de lembranças, recordações e ser menos sentimental; o pequeno apartamento não terá espaço para as caixas e caixas de fotos de outros tempos, coleções ou livros. Várias lembranças físicas já desfeitas, encaixotadas e guardadas em algum lugar da velha casa. Agora sigo apenas com a subsistência... só sobrevivência.

Mala novamente aberta.
Roupas novamente empilhadas. 
Caixas novamente pelo chão. 
Poeira pelo ar (e pelos móveis).

O apartamento vazio. Uma vida que cabe em poucas caixas. De sobre mesas e gavetas, tudo arrastado para caixas; a preocupação com organização ficará para o próximo apartamento. Um problema para meu 'eu futuro'. E a geladeira, mais vazia do que nunca.
                    
A tão comum sensação de estar esquecendo algo vai tomando conta. Mas o que realmente importa para a minha sobrevivência, agora cabe em uma mochila. Como um soldado em plena guerra.


Mala novamente aberta.
Roupas novamente empilhadas. 
Caixas novamente pelo chão. 
Poeira pelo ar (e pelos móveis).
Novo apartamento. Nova mudança.

   Os móveis montados, mas vazios. Nenhuma decoração, paredes em branco. A sensação contínua de sempre estar faltando algo; a sensação de estar vivendo em um hotel.

As roupas não estão empilhadas.
As caixas não estão pelo chão.
Mas a poeira está pelo ar...


   O novo apartamento ainda vazio. Os sons ecoam nas paredes. Uma sensação mista e confusa sobre a amplitude de espaço; o apartamento ainda é definido apenas por metros quadrados. Outros vizinhos, mesmos problemas.
   No piso, marcas da história; móveis fantasmas, manchas pelo chão, madeira bronzeada. Resquícios de outras épocas, outras pessoas, outras memórias. Em breve outros móveis; mas mesmos objetos, fotos e decorações.
   Por novas ruas passarei em minha rotina; novas visões terei, até pelas mesmas ruas que já passei. Pela janela, novos horizontes; outra paisagem, outra visão, mesma cidade. Levará dias até se acostumar com o que vejo através do vidro, e até lá persistirá a sensação de uma nova vida. Outra vida, mas mesma pessoa.
   Espero que agora persista um tempo de poucas mudanças. Ou... talvez... alguma pequena mudança venha para o bem: novas mudanças, nova vida.
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1 de ago de 2012

Diário de Mudanças [4]

Roupas diversas novamente empilhadas. Caixas novamente pelo chão.
Poeira pelo ar (e pelos móveis).
Novo apartamento. Nova mudança.

Os móveis montados, mas vazios. Nenhuma decoração, paredes em branco.
A sensação contínua de sempre estar faltando algo.
A sensação de estar vivendo em um hotel.

Casa... que na verdade é um apartamento.
Mas 'casa' é onde vive nosso coração, dizem.
Lar... ainda não pode ser considerado.
Levará algum tempo até esta 'casa' se transformar num novo 'lar'.
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25 de jul de 2012

Os reclamadores

E em um bom projeto é necessário dois lados: os que pensam e os que avaliam.
Sem avaliadores, idéias absurdas surgiriam nas mentes dos pensadores. O avaliador é um filtro. Penso que na vida também deve ser assim. Os que pensam e os que avaliam. Ou: 'Os que fazem e os que reclamam'.

Certamente à primeira vista não faz sentido. Mas avaliemos: se todos dissessem a máxima "Se não podes fazer melhor, não critique", o mundo estaria uma grande bagunça (para não dizer outras coisas). É de suma importância os avaliadores (ou: reclamadores). Se não posso fazer melhor, critico... e aguardo que alguém o faça. Obviamente, o mundo não funcionaria apenas com reclamadores.

Não tenho poderes políticos ou sequer financeiros para grandes mudanças urbanas. Devo eu ficar quieto e apenas assistir a tudo? Não... reclamo na cara de quem o fez. Devo me candidatar à política? Não... me sobra honestidade.

Se grandes filósofos tivessem se calado frente aos problemas da sociedade de suas épocas talvez não vivêssemos neste mundo que estamos. Talvez a sociedade estivesse até melhor, claro... mas não vamos complicar a linha de pensamento.

ok. ok. ok.
Parei, parei. Assumo: puro ressentimento, porque não aprendi a jogar futebol! vivo reclamando.

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18 de jul de 2012

O violão

Encostado na parede um violão desafinado.
Cordas oxidadas; poeira impregnada.
Mas segue pelos cantos.

Promessas semanais de trocar as cordas.
Afinar, limpar,tocar e cantar.
Mas segue ali no canto.

Ainda vou retomá-lo, e relembrar velhos tempos.
Fazer música de novo soar pela madeira.
Antes que desafinem meus dedos.
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11 de jul de 2012

A sociedade

Sub-julguei toda a sociedade, mas sem subjugar;
Botei o dedo em riste e pensei poucas e boas;
Falei muitas e más.

Mandaram-me não julgar a sociedade;
mas a sociedade mostrou a bunda,
e rebolou na minha cara!

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4 de jul de 2012

O mendigo

   - Olá... - disse Jones após alguns minutos sentado ao lado do homem; sendo respondido apenas com um aceno de cabeça e algum resmungo gutural.
   Jones, homem, adulto, cerca de 40 anos; desiludido com o trabalho e a vida. Talvez crise de meia-idade, talvez simples irritação com as adversidades urbanas. Demitido, divorciado, derrotado. Lhe recomendaram psicanálise, benzedeira, igrejas - mas Jones preferiu apenas tentar olhar o mundo de cima, procurando alguém que estivesse mais fundo no poço da vida. E assim sentou-se ao lado de um qualquer coitado que não teve oportunidades na vida - um morador das ruas.
   - Vai chover... - continuou Jones.
   - Vai. - apenas respondeu o homem.
   Jones buscava palavras para conversar com o homem - e "egoisticamente" erguer suas esperanças.
   - Estar nas ruas debaixo de uma chuva destas não deve ser nada bom, não é!?
   - Aham.
   - ...
   - (silêncio).
   Jones olhava para os lados, pensava no que poderia dizer.
   - Deve ser bem frio de noite nestes bancos, não?!
   - Certo - respondeu o outro homem sem interesse na conversa.
   - E arranjar comida deve ser complicado também, né?!
   - É...
   Jones não sabia como incentivar a conversação. O outro homem apresentava uma barba por fazer e cabelos desgrenhados; trajava roupas rasgadas e imundas. 
   - Suas calças estão bem furadas... - disse Jones tentando provocar.
   - Estão sim. - limitou-se a responder o homem.
   - E você não faz a barba a dias também.
   - Sim.
   - Nem corta os cabelos...
   - Também não.
   Jones já não sabia mais como jogar na cara daquele homem que ele estava no fundo do poço social. Resolveu apelar e ser extremamente direto.
   - Você deve ser totalmente infeliz morando nas ruas... não sei como consegue ficar sentado em um banco destes tranquilamente numa tarde destas; devia estar por ai mendigando!
   O homem virou a cabeça lentamente, ergueu uma sobrancelha e abriu um riso no canto da boca. Ficou sorrindo e olhando Jones.
   - Mas credo... como ainda pode rir disso... !? - disse Jones.
   O homem prosseguia rindo, cada vez mais abertamente. Depois de um tempo levantou-se, olhou as horas em um relógio de luxo escondido debaixo da manga do sujo casaco e disse:
   - Agradeço o elogio, mas lamento... tenho que voltar ao set de filmagem.
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27 de jun de 2012

Barbados

Analisemos a barba.

A barba acompanha o homem desde sempre. Antes da roda, a barba estava lá!
O homem a carrega em sua face como forma de virilidade, proteção ou puro estilo.
Algumas mulheres à apresentam também; mas é assunto para outro momento.

A barba é um estilo de vida. Barba é arte, já dizia um barbado.

Tenho uma teoria extremamente revolucionária... e que até hoje ninguém compreendeu: eu realmente acredito que se as mulheres tivessem barba, a coisa seria ainda mais complexa! Não me compreendam mal, não fiquem imaginando as mulheres com barba, estou falando de uma hipótese filosófica. Digamos que homens e mulheres tivessem barba, e fosse extremamente comum - como cabelos... homens e mulheres têm cabelos.

Se mulheres tivessem barba, a coisa seria realmente complexa: estilos de corte, tamanhos, produtos, etc. Se as mulheres já perdem tempo entre maquiagem, cabelos e roupas... imagina ainda com barba. Além dos estilos... homens deixam cavanhaques, bigodes, barbas grandes, etc - mulheres teriam muito mais estilo e preocupações; combinar cabelo e barba seria circunstancial.

OK OK... sinceramente... na real essa minha teoria é só uma queixa contra as namoradas que reclamam das barbas dos homens; mandando-os aparar, cortar, tirar. Se elas tivessem barba, saberiam como é divertido!
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20 de jun de 2012

Guardado-das-chuvas

Não chove à vários dias; estiagem.
Meu velho guarda-chuva permanece ali, encostado pelo canto da parede.
Se guarda-chuvas tiverem sentimentos, não sei se ficam tristes ou felizes estando totalmente secos.

Pelas ruas nem sinal dos bloqueadores pluviais verticais. Como se nunca tivessem existidos. Como se estivessem todos escondidos. Ninguém os recorda.

Uma nuvem encobre o céu; o sol se esconde. O tempo muda; um pingo pula lá de cima. Como um passe de mágica surgem guarda-chuvas de vários lugares. Vendedores gritam por eles, elevando-os ao alto. Todos relembram. Só os recordam em necessidade.

Corro pelas ruas, encharcando-me. Corro em direção de casa.
Abrirei a porta e pegarei o guarda-chuva seco. Darei um banho nele, para recordar os velhos tempos.
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13 de jun de 2012

Cinefilia

   Amelie era uma cinéfila. Seu verdadeiro nome era Amanda, mas Amelie soava mais Hollywoodiano - pelo menos era o que "Amelie" pensava.
   Amelie sonhava que um dia uma coruja chegaria em sua casa, lhe convocando para Hogwarts; que um dia encontraria um bilhete dourado em uma barra de chocolates, lhe concedendo uma visita à Wonka; que um dia encontraria um anel que lhe daria poderes; que seguiria por um caminho de tijolos amarelos pela Terra de Oz; e por ai segue. Despedia-se de seus amigos dizendo: "Que a força esteja com você"; sempre que tinha um problema, sussurrava: "Houston, we have a problem". Quando surgia qualquer perigo gritava: "Run, Forest, Run". E quando algo dava errado batia as mãos dizendo: "Corta!".
   Amelie decorou praticamente todas as falas dos maiores clássicos do cinema mundial; e as usava em seu dia a dia. No início apenas uma brincadeira, mas com o tempo tornou-se um vício... incontrolável. Quando Amelie ganhou uma aliança de seu namorado, ficou em total silêncio olhando-a na palma de sua mão... e depois pronunciou, com muito sentimento: "My Precious..." - e tossiu de estranho modo algumas vezes (ato que repetia frequentemente). Quando Amelie fez uma proposta de trabalho à um funcionário, disse antes de qualquer coisa: "Eu vou lhe fazer uma proposta que você não poderá recusar". Quando Amelie iniciou um Clube do Livro em sua escola, começou a primeira reunião dizendo: "A primeira regra do Clube do Livro é 'nunca fale sobre o Clube do Livro', a segunda regra do Clube do Livro é 'nunca fale sobre o Clube do Livro'". Quando Amelie foi promovida no seu trabalho, respondeu para seu chefe: "Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades" - mas seu chefe sequer gostava de filmes, e ficou na dúvida se havia feito a coisa certa. E assim iniciou-se a decadência moral de Amelie.
   Amelie progressivamente começou a comunicar-se apenas em uma pontuação, termos e fonética típica dos diálogos de filmes. Também criou uma quase certeza de que toda sua vida era filmada, como em "O Show de Truman"; e por isto evitava fazer "certas coisas". Amelie tinha uma certeza inabsoluta de que em outra vida lutou na guerra, assim como foi prisioneira de campos de concentração e piloto de avião. Com o tempo Amelie não suportou mais ir à praia, com terror de "Tubarão"; sequer andar de qualquer transporte hidroviário, com fobia de se repetir um "Titanic"; nunca mais entrara em uma avião, com um trauma não vivido de "Naufrago"; e jamais tomava sequer uma rápida ducha em um banheiro com cortinas, com receio de "Psicose".
   Amelie certo dia notou que toda sua vida realmente era "cinematográfica"; mas contrariando o esperado, em vez de buscar ajuda médica, achou que faltava apenas um detalhe para sua história ficar completa: uma morte cinematográfica. E assim Amelie planejou cada detalhe de como iria morrer: data, local, situação, últimas palavras, vestido, iluminação, etc. Resumidamente: iria ser empurrada do alto de um prédio, durante uma discussão com um (fictício) amante, caindo em frente à uma cafeteria cheia de frequentadores. Contratou maquiadora, figurantes, entre outros. Com tudo pronto, Amelie preparou-se para aquele que seria o ponto máximo no filme de sua vida: o fim desta. Fez sua última refeição... e ao atravessar a rua, para subir ao prédio, morreu atropelada por um ônibus. Apenas uma pequena nota foi publicada em um jornal de baixa circulação.
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6 de jun de 2012

O ônibus

   Entrei no ônibus após muito esperar. Lotado, como previsto. Com grande esforço entro, e consigo me estabelecer no segundo degrau da escada. Ainda estava longe meu destino, mas estava ansioso por pelo menos passar pela roleta; e a cada parada, mais um vivente tentava estabelecer seu espaço, onde já não cabia mais ninguém. Lotação: 132%.
   Trancos e solavancos foram até que à roleta pude chegar; com o cobrador me encarando e pressionando-me a passar, fiz de tudo para avançar para a área além da catraca; porém nem um passo era possível além deste limite, a roleta sequer giraria. "Um passinho à frente, favor", gritava à cada parada o cobrador fanfarrão; a cada grito, dezenas de pessoas olhavam com ironia para aquele que tentava comandar, sentado em seu trono.
   Certo momento consegui passar da etapa 'roleta'. Não por vontade própria claro, mas pelo andar do grupo como um só. Estava agora naquele momento onde todos que permanecem em pé pedem piedade aos sentados... porém os sentados sofrem com o calor gerado pelos que permanecem em pé. Nenhum movimento é possível para a maior parte dos passageiros, mas foi possível para alguém ligar o som de um celular... com a pior música que você pode imaginar. Ah, DJ's de ônibus... vieram ao mundo para gerar caos; todos no entorno olham com irritação, mas o responsável pela "animação da festa" finge que nada vê. Olho para os lados procurando uma brecha para ir ao mais longe possível do som, porém outros pensaram o mesmo aparentemente, e em minha frente surge um lugar para sentar; novo dilema.
   Sentar no ônibus: a honra do proletariado! Música ruim enquanto sigo sentado: a penitência! Atrás de mim duas menininhas discutem a última festa, com detalhes que - sinceramente - eu preferia não ter escutado... perdi ainda mais minhas esperanças no futuro do país. Ao meu lado alguém dorme, meio roncando, meio babando. De pé, do outro lado, alguém que eu classificaria como 'um tipo estranho'. 
   Chega enfim o momento de alívio; a cada parada o número de pessoas no ônibus reduz... até ficar quase vazio. Sinal que se aproxima a minha parada. Apenas mais alguns solavancos e uma ou duas músicas do celular de alguém, e me levanto. Toco o sinal e na parada desço. Que alívio... ainda tenho umas 6 horas até pegar o ônibus de volta! 

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30 de mai de 2012

Sábios símios

Os seres humanos não nasceram... evoluíram. Até certo ponto, ao que parece.

Enquanto uma multidão luta e morre pelo desenvolvimento, uma multidão ainda maior não luta, não morre e assiste à tudo de longe. Enquanto cientistas desenvolvem tecnologias capazes de tudo; uma multidão ainda maior finge que nada os preocupa e colam seus olhos em uma tela luminosa; escutam apenas os microfones; leem apenas o que lhes interessa. E fecha os olhos, ouvidos e boca ao resto.

Macacos sábios! Ouvem apenas quando querem, falam apenas quando desejam, veem apenas o que convêm. Mas discutem sobre tudo. Preceitos falhos, certezas errôneas, crenças na contramão. Uma geração que fala em "amor ao próximo", mas finge não ver o que dorme ao chão. Amor aos animais, ódio aos humanos.

Vivas à um garoto com um cabelo chamativo e boa coordenação nas pernas; vivas à uma garota criada pela mídia, com falsa habilidade vocal. Vivas aos vídeos, viva à televisão, viva a "igonorância'". Sob cordas, dança uma população inteira. A cada dois anos, determinando o futuro de um país; baseado em promessas e egoísmo. Sob cordas, fronte a cruz. A opinião baseada no discurso de um papagaio.

A ignorância passada de geração em geração, como uma herança. Racismo, ódio... amor - amor pelo errado, amor pelo desnecessário. Enquanto a população de países desenvolvidos quase reduz, países de terceiro mundo ajudam à cada dia a superpopulação.

Livros, jornais, palavras; cada vez menos lidas... porém cada vez mais discutidas - pelos que não leram. Nem uma novidade nesta indignação que sinto. Salve Nietzsche, aleluia; se Deus morreu antes do século XIX, a esperança no futuro morreu muito antes. 

Dancemos sob as cordas.

Mas não me ouçam... não me leiam. 
Sou apenas mais um ignorante, dando sua opinião sobre o que mal entende!
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18 de mai de 2012

Uma dissertação sobre a falta de inspiração [2/2]

[continuação...]

   Odranoel buscou em sua memória algum assunto que havia deixado cozinhando em sua cabeça. Decidiu pelo item 345P2S - código este, qual ele garantia que fazia parte de um estabelecido ordenamento de suas idéias mentais. Porém, o item 345P2S consistia da 'lua cheia'. Visto que ainda era dia, dificultaria uma escrita com mais emoção, pois não conseguiria olhar para sua branca e redonda musa inspiradora; outro fato que se somava, era que  nesta data a lua era minguante, e Odranoel não suportaria iniciar um texto que teria de aguardar até a lua certa para concluir. Assim, Odranoel decidiu, após cerca de 13 segundos, partir para outro assunto.

16 de mai de 2012

Uma dissertação sobre a falta de inspiração [1/2]

   Odranoel - escritor, leitor e crítico-gastronômico-amador-de-fins-de-semana - escrevia diariamente em sua máquina Olivetti Letera 82, de cor verde. Seu processo criativo consistia em um projetado e elaborado 'improviso'.
   Odranoel acordava todas as manhãs às 07:37 em ponto, descia para as ruas onde comprava um café-para-viagem em uma cafeteria na esquina, e 3 pães-de-queijo com um vendedor ambulante à duas quadras do primeiro local. Odranoel nunca viajava com seu café; e a cafeteria até vendia pães-de-queijo, mas eram de um tamanho muito maior do que os vendidos pelo ambulante - e achava uma pouca vergonha apenas 1 pão-de-queijo custar o mesmo valor de 3 em outro local... independente de seus tamanhos. Após a compra do café e dos pães-de-queijo, Odranoel seguia até um terceiro local, uma praça, onde sentava-se sempre no mesmo banco, ao lado de um coqueiro, onde tomava (e comia!) seu café-da-manhã - em dias de chuva, Odranoel molhava-se.

9 de mai de 2012

Laranjas

   Depois de comerem em silêncio, sem pressa, com o sol já quase sumindo no horizonte, os dois homens saíram para a varanda da casa.
   - "Pega uma laranja pro Vô, Neto! – disse o velho tropeiro, já sentando na cadeira de balanço e acendendo o lampião."
   Quando Neto voltou da árvore que ficava ao lado da casa, com duas laranjas nas mãos, o avô lhe falou com um ar de filósofo e um sorriso no rosto:
   - "Sabes, Neto... A vida é que nem uma laranja no alto de uma árvore... – fez uma pequena pausa – de longe, quando tu vê a laranja, ela parece grande, bonita, lustrosa. Daí tu faz um esforço tremendo pra pegar ela, e quando estás com ela na mão, tu vê que ela está enferrujada e nem era tão bonita. E tinha uma mais bonita que tava ao alcance, sem esforço!"

   Neto olhou para as laranjas, olhou para o avô e disse:
   - Pow, vô. Tu podia ter me dito isto antes de eu subir no alto da árvore, né!?

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trecho adaptado, do livro:
'Chimia de Abóbora', de L.A. Kapletto (este que vos escreve!)
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2 de mai de 2012

Vou tentar ser engraçado

Dizem que as pessoas que são (ou tentam ser) engraçadas, visam compensar algum problema: "sobre-peso", "falta de beleza exterior", timidez, etc. 

   Na minha infância, entrando no colégio, tentei ser engraçado, fazendo piadinhas... visando conquistar novos amigos; não deu lá muito certo.
   Na minha pré-adolescência, escola nova, tentei ser engraçado, bancando o espertinho... visando compensar as espinhas e falta de beleza; não funcionou muito.
   Na minha adolescência, saindo em festas, tentei ser engraçado, dizendo frases prontas e cantadas manjadas... visando ganhar garotas; não fui nenhum conquistador.

Os anos passaram....

Tentei ser engraçado fazendo piadas em festas, tentei ser engraçado nas redes sociais, tentei ser engraçado de forma culta. E... agora estou aqui, tentando ser engraçadinho, escrevendo textos em meu blog.

...calma, logo desisto.

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25 de abr de 2012

O Jornal

   O aroma convidativo de café e quitutes diversos é sentido por todos que passam pela frente do local. A cafeteria abrira a pouco tempo, trazendo novidades bem-vindas àquela região. No início, poucos aventureiros e curiosos, e claro, os viciados por café. Pelo lado de fora muitos passam, quase correndo, apenas espiando tudo pelas janelas.
   Aos poucos vão surgindo, um à um, os cativos consumidores. Casais apaixonados em busca de um local romântico, leitores assíduos atrás de um ambiente tranquilo para ler, escritores sempre à procura de inspiração; e claro, os viciados por café atrás de ...café! Mas algo faltava àquele lugar; até que em uma manhã qualquer, a porta se abriu...

18 de abr de 2012

Café

Nada como tomar um café espresso no café da manhã, acompanhado de um pão de queijo recém saído do forno.
...ou um café depois do almoço, para ajudar na digestão,
...ou um café no meio do expediente, para acordar,
...ou um café durante a um projeto no trabalho, para ativar as idéias,
...ou um café no final da tarde, para estimular o corpo cansado,
...ou um café de noite, para aguentar os estudos,
...ou um café antes da festa, para ficar bem animado,
...ou...
tomar todos estes do mesmo dia...

Mas o problema disto, é ficasra é, digo, que... quando tomo mto café.. eu escrnea fico mei elétrico... e agitadooo e ... eu , é xxxxxxxxxxxx.

Arrrrgh.

Peraê. Vou ali tomar um chá pra me acalmar.
Talvez um chá-preto.

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11 de abr de 2012

Trocados...


   Um dia ensolarado, com uma briza refrescante. Um homem se aproxima de uma mulher que aparentemente aguarda um ônibus em uma parada, fronte a uma praça.
   - Senhora, se me permites a licença, lhe peço apenas uma certa ajuda de custos visando minha alimentação..." - disse um homem, usando um terno e com a barba por fazer.
   A mulher o olhou com surpresa. Procurou algumas moedas em sua bolsa e as entregou ao homem sem dizer palavras. O homem a agradeceu com polida educação e quando estava se virando para seguir em seu caminho, a mulher chamou-o.
   - Desculpe-me, senhor... mas como alguém com aparente tão boa educação e usando um terno, está pedindo dinheiro para comer? - perguntou a mulher com muita curiosidade.
   O homem sentou-se ao lado dela no banco e disse:
   - Vou lhe contar a minha trajetória de vida, se me permites.
Com a curiosidade de uma mulher, esta concordou com a cabeça.
   - "Nasci em uma cidade, onde o futuro não era nada promissor". - iniciou o homem. - "Infância difícil, adolescência conturbada, e por aí vai. Resumindo... o tempo passou e o futuro chegou; nas ruas morei, pedindo dinheiro para as mais básicas necessidades..."
   A mulher o observava com olhos de pena.
   - Deve ter sido um período difícil de sua vida... e...
   - No início sim - prosseguiu o homem, interrompendo a mulher. - mas depois que peguei o jeito, foi muito fácil pedir dinheiro. Após aprender a pedir dinheiro... ninguém pedia dinheiro como eu; estratégia, planejamento e ensaio! Com o tempo, em apenas uma tarde eu conseguia o suficiente para sobreviver e ainda sobrava para comprar alguma roupa e um pouquinho de diversão.
   - Mas... para alguém que morou nas ruas, você...
   - Acalme-se. - interrompeu-a o homem. - Deixe lhe contar mais de minha vida... "Formei-me em Engenharia, anos de pesquisa científica; estudei ainda mais, fiz mestrado em uma universidade federal e algum tempo depois concluí meu doutorado na Alemanha! Trabalhei como pesquisador, trabalhei em empresas, tornei-me empresário, dei aulas em faculdades, escrevi livros..."
   - Uau. É impressionante Senhor, digo... Doutor! Bela história de vida. Um homem que pedia dinheiro pelas ruas, lutou, estudou, formou-se na faculdade, fez mestrado e doutorado... mas, só não entendi porque está nas ruas pedindo dinheiro agora!?
   O homem levantou-se, olhou nos olhos da mulher. E disse:
   - Acho que não prestaste a devida atenção à história que lhe contei. Nunca lhe disse que fiz isto; não fui das ruas ao doutorado, fui do doutorado às ruas...
   De queixo caído a mulher o olhava com surpresa. Sem entender nada.
   - Mas... - foi a única coisa que ela conseguiu dizer.

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Moral da história? Quem disse que tem moral...?!
Nem tudo dá certo na vida.

E... ninguém pedia dinheiro como ele.


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4 de abr de 2012

Antes dos 30...

   Estou na metade dos 20... mais exatamente naquele limiar entre '20 e poucos' e 'quase 30' anos.
   Vejo tantos fazendo suas promessas de 'coisas à fazer antes dos 30'. Penso que talvez seja hora de fazer uma também - com coisas que não alcancei ainda, claro... não vou mentir pra mim mesmo! Talvez seja estimulante... talvez eu não conclua nenhuma. Talvez fique ótima em 10 itens (não necessariamente em ordem):

01 - Ser totalmente independente;
02 - Estar financeiramente estabilizado;
03 - Ser um 'doutor' (doutorado!);
04 - Aprender fluentemente mais uma língua;
05 - Fazer uma viagem de mochileiro pela Europa;
06 - Comprar uma moto (talvez uma chopper) e fazer uma longa viagem;
07 - Fazer mais tatuagens - e cobrir o torso inteiro;
08 - Ter lido mais de 200 livros;
09 - Escrever um livro mais livros;
10 - Fazer uma lista de 'coisas para fazer antes dos 50 anos'.

   ...ou "Percorrer um dos caminhos de Santiago de Compostela (à pé!), pintar um quadro, aprender a tocar piano, comprar um carro elétrico, ser dono de uma empresa, fazer carteira D de motorista, comprar um casa/apartamento, iniciar uma 'coleção', investir na bolsa, comprar um cachorro, ...".
   Tantas coisas caberiam nesta lista... mas como os 40 são os novos 30 - e minha geração tem uma grande expectativa de vida -, fica mais pra frente.
   Mas na real... sei que não vou completar quase nenhum destes itens até meus 30 anos - alguns, nem depois deles. Talvez porquê esta lista está sendo feita por um cara com outras idéias, um cara ainda de '20-e-poucos-quase-tantos anos'... mas também, talvez, porquê o importante é apenas sonhar e ter metas, nem sempre necessariamente cumpridas.
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28 de mar de 2012

Diário de Mudanças [3]

   As roupas não estão empilhadas. As caixas não estão pelo chão. Mas a poeira já está pelo ar...
   O novo apartamento ainda vazio. Os sons ecoam nas paredes. Uma sensação mista e confusa sobre a amplitude de espaço; o apartamento ainda é definido apenas por metros quadrados.
   No piso, marcas da história; móveis fantasmas, machas pelo chão, madeira bronzeada. Resquícios de outras épocas, outras pessoas, outras memórias. Em breve outros móveis; mas mesmos objetos, fotos e decorações.
   Pela janela, novos horizontes; outra paisagem, outra visão, mesma cidade. Levará-se dias até se acostumar com o que vejo através do vidro, e até lá persistirá a sensação de uma nova vida. Outra vida, mas mesma pessoa.
   Por novas ruas passarei em minha rotina; novas visões terei, até pelas mesmas ruas que já passei. Outros vizinhos, mas mesmos problemas.
   Agora, ao menos, uns dois anos de uma mesma vida me esperam pela frente, no mesmo local; espero que não ocorram novas mudanças nesse meio tempo... ou... talvez... alguma pequena mudança venha para o bem: novas mudanças, nova vida.
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21 de mar de 2012

Pelos corredores

Gosto de andar pelo meio de universidades.
Agora que já me formei, sinto falta da faculdade. Antigamente tinha pavor destes lugares. É só o tempo passar pra chegar a nostalgia. Andar por estes ambientes é relaxante para mim. Aquele clima feliz, sensação de segurança, alegria, jovialidade, etc. Ah, bons tempos. Saudades desse período da minha vida:

café por todo lado,
espirito jovial,
gramados,
café,
jovens,
mulheres bonitas,
pessoas bem vestidas,
... café,
maquinas de refrigerantes,
maquinas de café,
corredores...
...
..
.
..
...
provas,
correria,
trabalhos atrasados,
turistas de universidade,
patricinhas de Beverly Hills,
preços absurdos por uma comida sem graça,
carros de estudante que afirmam não ter dinheiro pra xerox.
e...

droga...
deixa eu pegar um café e sair logo daqui.
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14 de mar de 2012

O tracinho piscante

   Chega um dia na vida de um escritor - ou mesmo de um aspirante à escritor - que em sua frente paira apenas um tracinho piscante.
   Isto claro nestas épocas modernas, onde escrevemos em papéis virtuais; mas devia ocorrer também com as (hoje em dia) velhas máquinas de escrever: de repente o som silenciava. O papel sob a caneta/lápis/pena aguardava, branco, vazio.
   Pisca, pisca, pisca. Digita-se, apagava-se. Pisca, pisca, pisca.
   A cabeça tenta, as mãos de aquecem, e o tracinho continua piscando. As idéias surgem, se montam como em um quebra cabeças de mais de mil peças... e somem em um segundo. Mas o tracinho segue piscando.

   O texto por fim é escrito, lido e relido. Uma sensação de déjà vu surge. De onde provém, não sei... mas tenho certeza que este texto já foi escrito... em outro lugar... por outro escritor.
   Tanto já foi escrito, produzido, gravado; a cada dia mais difícil escrever algo totalmente original. Aposto que Shakespeare não passou por este problema... se bem que Shakespeare também não devia ter nenhum tracinho piscante em sua frente.
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7 de mar de 2012

Pipoca de Cinema

Certo fim de semana resolvi que não ia passar o sábado inteiro sozinho dentro do meu apartamento. Resolvi que ia ficar sozinho, dentro de um cinema lotado.

Conferi no site os filmes que estavam passando; um filme qualquer me chamou a atenção e o horário estava ótimo. Arrumei-me (lê-se: coloquei a primeira camiseta que vi pela frente e um tênis que estava jogado em um canto) e fui até a parada aguardar o ônibus. Não lembro se aguardei 15 minutos ou 3 horas, mas pareceu um longo tempo - para entrar em um ônibus lotado, em um dia quente.

Ah, bela sensação de um ar condicionado de shopping. Encaminho-me ao cinema e... fila. Estar sozinho na hora de comprar um ingresso, em uma fila cheia de grupos de amigos e casais não é a melhor das situações. Senti-me sendo analisado e julgado. Julgado e multado... poia que valor absurdo o do ingresso!

E é claro, ir sozinho ao cinema e não consumir uma bela e gordurosa pipoca seria uma tortura. E... fila. Novamente. Ah, o paraíso do colesterol: chocolates, pipoca, refrigerante, cachorro-quente... acho que só o cheiro já me engordou. Mas que belo perfume; só o cheiro já me convence a abrir a carteira e pedir: "Um de cada...". Mas, obviamente, o salário é menor do que a vontade de comer. "Pipoca Pequena e Guaraná 300ml. Favor". Fila errada... fui alertado. Nova fila... e tenho quase certeza inabsoluta de que fizeram isto para dar mais uma chance para cheiro-de-pipoca-de-cinema me convencer a gastar mais. Mas sou forte e valente e tenho pouco dinheiro. "Pipoca Pequena e Guaraná 300ml. Favor". "Se o senhor pegar a pipoca média, e refrigerante 500ml, o senhor ganha uma balinha" - disse a atendente. Ou algo assim. Não sei que super poder de convencimento tem estas pessoas... mas sem notar eu estava carregando a dita pipoca média e refri 500ml. Cálculos mentais...


29 de fev de 2012

Analfabetismo manual

Ah, maldição. Desaprendi a escrever. Virei um escravo das teclas.
Com caneta e papel, apenas 'desenho letras'. Algo próximo de hieróglifos ou pinturas rupestres.

Tá certo que não é de hoje que minha letra não é a mais bela... mas já foi no mínimo compreensível. Por vezes nem eu mesmo à compreendo. Já fiz caligrafia, já escrevi com letra de forma - mas a forma foi entortando, e ficando cada vez mais deformada.

Me sinto um Analfabeto Manual - uma sensação de que se continuar neste ritmo, ou datilografarei digitarei meu nome, ou usarei minha impressão digital. Se bem que a assinatura é algo tipo um risco qualquer... apenas tenho que desenhá-lo sempre igual!

22 de fev de 2012

Diário de Mudanças [2]

Roupas diversas novamente empilhadas. Caixas novamente pelo chão. Poeira pelo ar (e pelos móveis).

O apartamento cada vez mais e mais vazio. Minha vida cabe em caixas - em poucas caixas. Ando mudando de casa, mais do que de celular (e isto, nos dias atuais, é muita coisa!).

De sobre mesas e gavetas, arrasto tudo para uma caixa... no próximo apartamento me preocuparei em arrumá-los. Isso é problema para meu 'eu futuro'. A geladeira, mais vazia do que nunca. E a alimentação, nem comida congelada: tele-entrega.

Me sinto como indo à faculdade; aquela preocupação de estar esquecendo alguma coisa - até se tocar de que o que importa está na pasta/mochila. O que realmente importa para a minha sobrevivência, agora cabe em uma mochila. Como um soldado em plena guerra.

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15 de fev de 2012

Os óculos

Desci as escadas, abri o portão e pisei na rua. Poucos passos precisei para me tocar de que algo não estava certo. O mundo estava diferente; sem cor, nublado, estranho. Conferi as horas no relógio e olhei para o céu tentando descobrir se vinha chuva. Tudo aparentava a normalidade usual. Dei um passo, e ia seguir meu rumo diário, quando fui limpar meus óculos - um vício dos míopes. Levantei a mão para segurar a haste, e quase acertei meu olho. Maldição... esqueci meus óculos em casa!

Meia volta, volver. Abre portão, sobe escadas, pega os óculos de sobre a mesa, e retoma rotina. Bem que notei que o mundo não estava em HD. Ah escravidão, não vivo sem meus óculos; mas antes que me recomendem usar lentes... eu gosto de usar óculos. Poucos me entendem... mas meus óculos não são apenas uma armação que segura lentes curvas, presa em minhas orelhas... é mais que isso. É estilo. E não, não estou dizendo que fico mais bonito ou estiloso com eles. Mas representam-me. Tipo quando você está em algum local e dizem: "Ali... do lado do cara de óculos"; ou mesmo: "Um cara alto... que usa óculos!". Não quero ser apenas o "cara alto"; seria mais difícil de lembrarem de mim. Divaguei demais...

11 de fev de 2012

Descobertas [2/2]

 [...continuação]

O SINO SOOU 1X NO PUB. 
   Pediram a última rodada.

   Após uma forçada risada, Fernando perguntou, tentando rir:
   - OK, já que descobrimos que literalmente temos de lhe perguntar sobre tudo... você por acaso nunca ganhou algum Prêmio Nobel?
   - Não... - respondeu Alberto.
   - Ufa, seria muita surpres[...]
   - ...ainda. - continuou Alberto.
   Novamente: silêncio.
   - Nã...nã...nã. Nada mais me surpreende hoje. - disse Saul. - Explique-se.
   - Ah... estão encaminhando minha indicação por uma pesquisa que participei a algum tempo, e tenho boas chances.
   - Heim? Que pesquisa? Sobre o que?! - perguntou alguém, com olhos esbugalhados.
   - Bem, à princípio descobrimos uma possível cura para o câncer.
   Até uma mesa ao lado silenciou desta vez.
   - Cura... câncer? Como... assim?
   - Sabem como é...  testes laboratoriais com cobaias... repetições, diferentes tratamentos, placebos, etc.
   - E nunca... - Ricardo começou a pergutar.
   - ... perguntaram. - completou Alberto.
   - Mas...
   - Ninguém nunca comentou que tinha câncer aqui... - tentou se explicar Alberto.
   Se entreolharam tentando descobrir o que poderiam agora sequer falar. Olhavam para os lados, imaginando se nas outras mesas também estariam havendo tantas descobertas numa só noite. Novo silêncio. Pareciam agora totais desconhecidos; imaginavam se, entre os outros amigos presentes na mesa, também não haveriam outros pequenos-grandes segredos desconhecidos.

8 de fev de 2012

Descobertas [1/2]

   Era noite; aquele calor com frio, característico da primavera. O pub estava cheio, como sempre. Claro que para este pub estar cheio, bastavam poucas pessoas. Pelas mesas grandes copos de cervejas artesanais; e o burburinho de várias conversas ao mesmo tempo. Em uma destas mesas, o grupo de sempre; amigos de longa data. Entre eles, os assuntos de sempre.
   Comentavam o carro novo de um, a formatura de outro, o ingresso no mestrado de um terceiro, o possível casamento de um quarto, e os velhos tempos de colégio de todos. Analisavam o desenvolvimento econômico, cultural e intelectual daquele grupo que em anos passados só jogavam bola e andavam de skate. "Quem diria que estaríamos hoje entre engenheiros, economistas, empresários e etc!", comentou um deles, "Uns já tiveram filhos, outros já plantaram árvores, agora só falta alguém escrever um livro...", completou, brincando com o ditado popular de 'uma vida completa' e 'plenamente realizada'.
   Todos riram alegremente; menos Alberto.
   - Bem, na realidade... eu já escrevi um livro. - disse.
   Silêncio na mesa. Todos se entreolham, com estranheza.
   - Como assim 'já escreveu um livro'? - questionou Ricardo.
   - Hã... escrevi palavras, impresso, capa... papel Offset 75g...
   Novo silêncio; quase constrangedor. Um clima de desconfiança no ar.

1 de fev de 2012

A cela e a janela

Sol...
Um lindo dia, poucas nuvens - apenas pintando o azul celeste -, brisa leve, pássaros cantando... 
e eu aqui preso, assistindo a tudo, por uma janela.

Preso. Entre quatro paredes. Meu mundo é o que me cerca. Saindo apenas algum tempo por dia, para sentir o frescor do mundo real. O sol toca minha pele, me trazendo velhas lembranças.
De fora, olho a mesma janela. O mundo ao contrário.
...retorno, de volta a cela, de volta à janela.

Chove...
O dia vira noite, vento, trovões, a água lavando o mundo...
e eu aqui preso, assistindo a tudo, por uma janela.

A água cessa. O vento varre as nuvens. O sol reaparece. Tudo recomeça.
Vejo à tudo, pela janela.

O que me separa do mundo lá fora... é apenas uma chave e uma maçaneta.
Se as girar, encontrarei o mundo real.
Porém é mais fácil seguir nesta cela.
E olhar o mundo passando pela janela.

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25 de jan de 2012

Cabide em forma de cadeira

   Por um canto de meu quarto paira uma cadeira. Na real poucas vezes sentei nela. 
Ela serve mesmo como cabide!

   Até cogitei comprar um daqueles cabideiros tradicionais, verticais, com várias pontas. Mas fiquei na dúvida entre um de metal e um de madeira, e ainda tinha a questão da cor; mas claro, um cabideiro tradicional destes não combinaria com o estilo do meu quarto. Uma cadeira tem mais irreverência.

   A cadeira, além do estilo descontraído e jovial, tem outros benefícios: serve também como 'cadeira'. Quando necessário, é só tirar todas as roupas empilhadas e jogá-las sobre a cama e sentar-se. Algo tipo um 2 em 1. Tudo bem, as roupas ficam meio amassadas, mas é bem prático. Garanto!

   Eu andei procurando outros objetos similares para tal utilização; pensando em mudar um pouco o feng-shui do quarto. Até me recomendaram uma esteira ergométrica - garantiram que em pouquíssimo tempo ela funciona super bem como cabide -, mas não achei que combinaria com a cor da minha parede.

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18 de jan de 2012

Diário de Mudanças [1]

Mala aberta sobre a cama. Roupas diversas empilhadas. Caixas pelo chão. Poeira pelo ar. 

Começo a limpar as coisas para a mudança; me impressiono com a quantidade de porcarias que se guarda... coisas antigas... papeis velhos... desnecessários... o que importa se encaixota e segue-vida. Abrir a mão de lembranças, recordações e ser menos sentimental; na quitinete não vai caber suas caixas e caixas de fotos de outros tempos... ou sua coleção de latinhas... ou todos seus livros... ou seu sofá preferido.

E olha que eu já tinha me desfeito de muitas lembranças físicas. Tudo encaixotado em algum lugar na velha casa. Vou levar agora apenas a subsistência... só itens de sobrevivência. Só não levo apenas um uniforme e um canivete-suíço, pois um pingo de conforto ainda me é possível. Ainda!

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11 de jan de 2012

Telefone desfixado

   Acordei assustado com um barulho estranho. Tinha aquela impressão de que o som vinha de dentro do meu apartamento. Levantei em um pulo e abri a porta; passei pelo corredor tentando adivinhar de onde viria aquele som. Pressupus a direção, depois de muitos virares de cabeça tentando de uma forma totalmente instintiva gerar o melhor ângulo para que o som se propagasse para dentro de minhas orelhas - como um cão que gira a cabeça quando ouve algo desconhecido. Definitivamente o som vinha da minha sala.
   Fui seguindo o termitente som como quem segue o bip-bip de uma bomba relógio. Passo a passo, lentamente, me aproximei de uma mesinha, ao lado de uma cadeira. Estendi a mão, com todo o cuidado humanamente possível, e retirei uma jaqueta - jogada em algum momento qual me falha a memória - de sobre onde certamente vinha o som. Qual surpresa foi ao reparar que aquilo aparentemente era um telefone-fixo.

4 de jan de 2012

1 ser Anormal

O que é ser normal nos dias atuais?

Como diria Woody Allen: "A loucura é relativa. Quem pode definir o que é verdadeiramente são ou insano?"

Raciocinemos... quem definiu o que é NORMAL? Pressupõem-se que a sociedade possuí padrões de comportamento, e o que foge deste padrão, não é 'normal'. Nesta linha de pensamento, se questionássemos a "100%" de um grupo, e "90%" das respostas fossem similares, os outros "10%" seriam "anormais".

Se a moda comanda o uso de calças coloridas, e eu usar um 'blue jeans' tradicional, não estarei sendo "normal" naquele meio... me olharão estranho, rirão de mim. Serei "anormal" neste meio.

Porém... será que o normal, é o ideal?! Quem garante que esse suposto 90% está correto?
Não garanto nenhum dado, é apenas minha opinião. Mas a sociedade, em geral, não me aparenta ser lá muito inteligente. Acredito que é apenas uma pequena % desta que podemos chamar de 'inteligente'. Talvez "10%"?! 

Ser inteligente (acima do padrão) é ANORMAL. Concluir um doutorado no Brasil, é ANORMAL. Escrever um livro é ANORMAL. Fora do normal, fora do comum.

Será que quero ser 'normal'?

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