A correnteza subo
pela estrada asfaltada
seguindo o meu rumo
de volta pra casa.
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Crônicas de Um / 1 Qualquer: crônicas,contos,textos
8 de mar. de 2014
14 de fev. de 2014
O livreiro
por
Capeleto
Os passos rangiam o assoalho. Madeira gasta. Velha. Marcada pelo tempo. Sobre os livros pairava uma camada de poeira - nem tão fina para os que lá estavam a anos aguardando. Circulavam entre as estantes poucos consumidores potenciais. Livros eram retirados do local, abertos, folheados, devolvidos. E o ciclo seguia.
Pela rua desfilavam guarda-chuvas; e estes por vezes permaneciam abertos mesmo sob as marquises - atrapalhando os transeuntes que por azar ou desmemória não os portaram ao sair de seus lares. Chovia calmo - dessas chuvas que surgem sem aviso e somem assim mesmo. Chuva destas que fazem surgir sono. Que fazem sonhar durante o dia. Que pegam no desaviso aqueles que sentados ficam esperando. Que...
- Oi. - disse alguém. - Hei! - repetiu, cutucando o livreiro. - Quanto é este livro?
Acordado de um cochilo à cutucadas, Antônio levantava a cabeça com cara amarrada.
- É... 7 mil cruzeiros - respondeu de reflexo.
O sol recém surgia; as luzes da rua ainda permaneciam acesas. Operários desciam dos primeiros ônibus do dia. O som de portões de metal subindo destaca-se no ar. Antônio buscava a chave do portão entre as demais do molho. Subia o rangente portão. Descia-o parcialmente após adentrar. Ligava as luzes, colocava as chaves sobre o balcão e saía novamente do local. Atravessava a rua e entrava no Bar; pedia um café preto, em copo de vidro pequeno. Assim todos os dias.
Pessoas entravam e saíam do sebo do início ao fim do dia. Entravam algumas com livros e saíam sem; entravam algumas sem e saíam com. Entravam e saíam várias sem. Assim todos os dias. Em dias de chuva o chão molhava. Pingavam nos livros. O piso escorregava. Povo ficava mau humorado; mau humorado também ficava o livreiro. Antônio cansava. Sabia os preços de cabeça, e quase nem precisava olhar a capa - pela pessoa previa o livro. Já na entrada fitava a pessoa e previa. Mas em dia de chuva as coisas de bagunçavam. Pedestre sem guarda-chuvas fugia do tempo olhando livros. Lá fora chovia. Chuva calma. Dessas que surgem sem aviso. Dessas que dão sono. Pessoas entravam e saíam. Entravam e saíam. Entravam...
- Oi... - disse alguém. E Antônio acordava se um cochilo, de mau humor.
Renato fugia da chuva. Atravessava a Rua da Praia correndo, buscando a próxima marquise. Esquecera o guarda-chuva em casa; ou fora pego de surpresa - essas chuvas as vezes surgem sem aviso. Subia a Borges, desviando dos guarda-chuvas que permaneciam abertos mesmo sob coberturas. Molhava-se a cada esquina. Faltava paciência para aguardar parado o tempo acalmar. Correu para debaixo de outra marquise. Chacoalhou as roupas e os cabelos molhados. Ajeitou a gola do casaco e olhou a vitrine de um sebo. Espiou o relógio; ainda era cedo. Entrou. Livros empoeirados, piso molhado, tábuas rangentes. Tradicional. Dentre as capas títulos clássicos. Twain, Dickens, Kerouak. Livros desconhecidos ao lado. Um o chamava atenção. Abriu a última página buscando um preço; valores de diferentes épocas monetárias apareciam. Cruzeiros, cruzados, reais. Carregou o livro até o caixa - em uma comum tentativa de filar um desconto negociado. O livreiro dormia sem esconder.
- Oi. - tentou. Hei... - tentou novamente.
Então cutucou o velho para acordá-lo de vez. Antônio, o livreiro, acordava; de mau humor.
- É... 7 mil cruzeiros - disse.
Renato preferia ouvir o valor em reais - já que era a moeda corrente. Preferiu não confrontar o velho.
Lá fora chovia. Dessas chuvas que vêm sem aviso. O povo se escondia por sob as marquises. Entravam nas lojas pra fugir do mau tempo.
- Ok. - disse Renato pondo o livro sobre o balcão. - Faz no crédito.
Antônio resmungou, pegou o livro, olhou a lombada, abriu a última página, espiou pra fora, devolveu o livro pro balcão e disse:
- Não tem crédito aqui
Renato segurava o cartão do banco.
- Tá, então faz no débito - disse, batendo o cartão sobre a capa do livro.
- Não tem também. - respondeu o livreiro. - Aqui só em dinheiro.
Sobre o balcão pairava uma máquina registradora. Dessas tradicionais, presentes em qualquer museu. Pintura danificada pelo tempo, teclas gastas, peças faltando. Seguia operando desde muito. Renato resmungava agora. Abriu a carteira contrariado. Buscou algumas notas, depois algumas moedas. Contou: cinco e sessenta. Preferiu não chorar um desconto. Devolveu o livro para uma pilha. Saiu devolta a rua. Lá fora ainda chovia.
O dia amanheceu limpo e seco. Um vento frio apenas relembrava a chuva do dia anterior. O povo corria pelas calçadas, usando inclusive as ruas para reduzir o congestionamento matinal. Na Esquina Democrática as filas se formavam nos carrinhos de pão de queijo. "Três", pediu Renato. Carregando o saquinho, seguiu em seu trajeto. Subiu pela Travessa para atalhar - e pegar menos trânsito. Ainda era cedo. O som de portas metálicas subindo fazia sinfonia pelas ruelas. O ônibus demoraria.
No "Sebo Dant'ônio" o livreiro tomava seu café, seguindo sua rotina. Entre os livros, uma ou duas mulheres. Renato entrava, rangendo a madeira do piso. Renato não buscava nenhum livro em específico; mas sempre carregava consigo uma lista de velhos clássicos. Steinbeck, Hemingway, Neruda. Olhava os demais "caçadores" do local. Que livros estariam buscando - pensava. Pelas estantes misturavam-se livros novos e velhos; brochuras, capas duras, pulp's.
- Quanto custa? - perguntou uma jovem ao livreiro, segurando um pesado livro.
Antônio apertava os olhos para tentar reconhecer o livro. A jovem colocou-o sobre o balcão. Antônio segurou o livro, girou nas mãos e aparentemente sentiu o peso.
- Te faço por vinte reais. - respondeu por fim, em um tom de quem esperava uma contra proposta.
A garota fez cara de quem analisava a proposta. "Qual a história do livro?" - perguntou. O velho livreiro fechou a cara e respondeu rispidamente um "Não lembro.", baixando a cabeça para algo sob o balcão. A jovem agradeceu com um sorriso, mas largou o livro sobre uma pilha. Renato acompanhou a curta negociação de longe. Reconheceria de longe aquela edição de "As vinhas da ira". Seguiu olhando os livros, porém não se conteve e pegou o livro deixado pela garota. Abriu-o e estava em boas condições - mal amareladas pelo tempo. Buscava o livro a tempos; e o havia lido à ainda mais - porém não o tinha em sua estante. Carregou o livro até o livreiro, calculando sua contra proposta. Fingiu primeiro não ter ouvido a conversa anterior.
- Oi... por quanto o senhor me faria este As Vinhas da Ira?
E foi o primeiro sorriso que ele vira o velho dar.
- Esse é um bom livro! - disse afávelmente - Um clássico definitivo. Um de meus preferidos. Mas ao mesmo tempo um livro depressivo; mostra um período negro da história americana... e o que há de pior, degradante e sombrio no ser humano. Mas é um de meus livros preferidos mesmo assim. Renato surpreendeu-se com o livreiro. Presenciara uma mudança repentina no velho homem.
- Realmente. - limitou-se a responder. - E por quanto me faria? - disse, já engatilhando a contra-proposta.
- O preço é dezoito, mas te faço por quinze. Tá parado a tempos aí.
- Ok. Eu levo. - disse Renato, sem ter precisado negociar.
Saiu do sebo carregando o clássico. E estranhando os fatos ocorridos.
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9 de out. de 2013
Carnívoros
por
Capeleto
"Libertem as proles" - gritavam os manifestantes em mais um protesto contra o consumo de carne humana, em frente ao maior matadouro do estado.
Protestos do gênero já haviam se tornado comuns; ocorrendo desde o início da produção, em um passado nem tão distante. "Libertem as proles - são humanos como nós" - gritavam alguns manifestantes. "As proles também têm sentimentos" - berravam outros.
Criados desde o nascimento (nos chamados "berçários"), as proles de modo algum eram vistas como "humanos" pelas massas. Não falavam, não se vestiam, nem nada do gênero.
"É necessário! O mundo não sobreviveria sem as proles atualmente" - afirmavam os produtores. Nada se perdia neste negócio; as peles, cabelos e até o esterco viravam produtos. Era definitivamente um lucrativo sistema. "Nascem para isto" - ressaltavam os consumidores.
Para o povo em geral esta produção era sequer estranhada. Nasceram e cresceram comendo carne humana; nem contestavam os porquês. Este ingrediente fazia parte da dieta geral, estando presente em diversas receitas e modos de preparos.
"Não somos animais ou coisa do gênero para consumir mato ou carne de bicho" - diziam exaltados os carnívoros frente aos argumentos dos ativistas.
As autoridades apenas controlavam os escassos manifestantes no local. Aos poucos o protesto se dissipava. Em breve ocorreria novamente - sem causar impactos na produção.
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2 de out. de 2013
Notas sobre uma praia
por
Capeleto
Caminhei por horas sobre a areia;
o mar tentando a todo momento molhar meus pés.
Caminhei por horas pela beira da praia;
olhei para trás e parecia que poucos metros havia percorrido.
Estou em um hotel barato próximo ao mar. Divido com outros cinco colegas. Todas noites são iguais - garotos bêbados discutindo futilidades corriqueiras. Por vezes fujo de tudo para olhar o oceano e tentar lavar a alma.
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Escrevo essas palavras de um ônibus que desconheço seu trajeto - só sei seu destino.
A cidade está tomada de estrangeiros. Congressistas doutores vindo de vários lugares. Conversei em um péssimo inglês com dois deles. Uma pesquisadora canadense e um professor australiano. "Austrália - a terra onde qualquer coisa pode te matar" disso à ele. Ele riu; piada clássica. Me questionaram o que pretendo fazer em meu futuro. Respondi o óbvio, pois nem eu o sei.
---
Gaivotas gigantescas molhavam as pernas no mar.
Corriam de mim quando me aproximava.
O mar vêm e vai.
Um terminal de ônibus se aproxima.
Pessoas correm.
Em algum lugar o mar vêm e vai.
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o mar tentando a todo momento molhar meus pés.
Caminhei por horas pela beira da praia;
olhei para trás e parecia que poucos metros havia percorrido.
Estou em um hotel barato próximo ao mar. Divido com outros cinco colegas. Todas noites são iguais - garotos bêbados discutindo futilidades corriqueiras. Por vezes fujo de tudo para olhar o oceano e tentar lavar a alma.
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Escrevo essas palavras de um ônibus que desconheço seu trajeto - só sei seu destino.
A cidade está tomada de estrangeiros. Congressistas doutores vindo de vários lugares. Conversei em um péssimo inglês com dois deles. Uma pesquisadora canadense e um professor australiano. "Austrália - a terra onde qualquer coisa pode te matar" disso à ele. Ele riu; piada clássica. Me questionaram o que pretendo fazer em meu futuro. Respondi o óbvio, pois nem eu o sei.
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Gaivotas gigantescas molhavam as pernas no mar.
Corriam de mim quando me aproximava.
O mar vêm e vai.
Um terminal de ônibus se aproxima.
Pessoas correm.
Em algum lugar o mar vêm e vai.
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27 de set. de 2013
Há muito tempo que ando na rua de uma Elegante Barbearia
por
Capeleto
Fundada em 1947, a Barbearia
Elegante vai fechar as portas...
2013. A barbearia localizada
quase na esquina da Jerônimo Coelho com a Borges era (ou ainda é) um pedacinho
do passado, no centro de Porto Alegre. A aposentadoria, depois de mais de 60
anos, deve ser um sinal dos novos tempos. Os barbeiros que não irão "guardar
na gaveta suas navalhas", vão migrar para outras barbearias e salões ainda
vivas.
"Oh, fica com o meu
cartão". - disse o meu barbeiro - "Vou estar agora ali na travessa,
perto da saída do cinema". Ali já não é mais exatamente a saída do cinema.
O cinema já fechou praticamente - uma ou duas salas permanecem apenas.
| Foto: Instagram - Roberta Malta (http://instagram.com/p/Y5ZFVCCqUN/) |
Os cinemas eram sucesso em 1947,
quando a barbearia abriu. Nos cartazes provavelmente estavam
"Copacabana" - com Groucho
Marx e Carmen Miranda - e “Tarzan e a Caçadora”. Era pós guerra; os Aliados
haviam vencido o Eixo dois anos antes. A geração "baby boom" iria
cortar seus cabelos por ali. Na rua, em frente, deviam passar ou estar
estacionados alguns Ford Mercury, Simca's e Chevrolet's. Talvez movidos à
gasogênio - já que a gasolina estava em falta.
Em 1950' os bondes deviam rodar
pelas ruas. "Subir no bonde, descer correndo". Eram os "Anos
Dourados". O DNA era descoberto naqueles tempos. Uruguai ganhou a Copa de
50, mas o Brasil levou a de 1958 - a primeira! O clima ainda era de pós-guerra;
geração Beat se formava, principalmente nos Estados Unidos. Na barbearia deviam
entrar jovens usando jeans para aparar seus topetes.
Em 1968, quando a barbearia foi
assumida por Ilson Schambeck, nos cinemas estava sendo lançado o clássico
"2001: Uma Odisséia no Espaço". Nas rádios tocava "Se Você
Pensa", do Roberto Carlos; a Jovem Guarda ainda reinava. Nas ruas deviam
rodar alguns já velhos Cadillac's, Belair's e Ford's Victoria; talvez alguns
DKW, Fuscas, Romi-Isettas e Gordinis recém saídos de fábrica. "Sessenta e
oito, um mau tempo talvez"; fora do Brasil acontecia a Guerra do Vietnã.
A década de 1970 passou sob
ditadura. Um "Porto não muito
alegre". O "milagre brasileiro" acontecia; e a censura da mídia
ao mesmo tempo. Ali pertinho, na esquina democrática, alguns protestos devem
ter acontecido; torturas e violência policial ao mesmo tempo. Mas, "Deu
pra ti anos 70"; alguns hippies devem ter aparado suas madeixas por lá.
Os anos 1980 foram talvez a
"Belle Époque" do rock gaúcho; Engenheiros do Hawaii, TNT,
Taranatiriça, Cascavelletes. Nas ruas protestos novamente; Diretas Já e fim da
ditadura militar. No fim da década caía o Muro de Berlin.
Em 1990' o salão já era antigo. A
revolução digital ia iniciando; no salão velhas cadeiras. Os anos 2000'
passaram também; os barbeiros lá liam seus jornais. 2010' entrou; o salão havia
reduzido de tamanho e o filho do barbeiro fundou um bistrô ao lado da
barbearia.
A barbearia estava toda
reformada, sem perder o estilo mais que clássico. A navalha estava sempre
afiada - e eu confiava totalmente nas mãos dos velhos barbeiros. Terei de
buscar outro túnel do tempo. Talvez ali perto da saída do cinema – enquanto
este também ainda estiver por lá.
Entrando na Barbearia Elegante eu
viajava para as décadas de 1970, 60, 50... juro que as vezes eu via um velho
Ford passando na rua.
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